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Incêndios e cães destruíram rebanho e pastor de Oliveira do Hospital abandona fabrico de queijo, lamentando a falta de apoios

Manuel Simões atesta o depósito do seu tractor que já mostra sinais de muitas horas de trabalho. Aparentemente, talvez demasiadas. Mas é altura de dar mais uma volta à terra para semear o pastio para as ovelhas que lhe restam. Tem de combater os formigueiros que ultimamente têm surgido em grande quantidade e isso não ajuda a pastagem a crescer. “Nunca vi tanta formiga como agora”, lamenta este pastor que desde 2017 e nos dois anos que se seguiram viu a sua vida “virada de pernas para o ar”. Foi obrigado a deixar de produzir queijo Serra da Estrela DOP, passando a vender o leite. Os azares que se abateram sobre a sua quinta não deixaram grandes saídas. Dizimando-lhe o enorme rebanho que o acompanhava e que agora está reduzido a 170 “cabeças” bordaleiras.

A má sorte começou com os incêndios de 2017 que lhe mataram cerca de 60 ovelhas. Quando começava a levantar a cabeça, surgiram os cães vadios famintos, muitos deles abandonados devido aos incêndios, que lhe atacaram o rebanho. Mais de 200 ovelhas foram chacinadas. “É muito triste assistir a tudo isto e não ter ninguém que nos deite a mão”, conta este produtor que recebeu “dois mil euros como apoio da CM de Oliveira do Hospital e o desinteresse da parte dos serviços veterinários”. “Com tanta ovelha ferida e nem uma injecção cá vieram dar”, conta.

Numa das quintas, Manuel Simões olha em volta onde existem uns terrenos que diz terem sido vendidas por bom dinheiro “a uns tipos que só montaram ali umas tendas”. “Se me oferecerem o mesmo a mim, vendo logo tudo, quinta, ovelhas, tractor…vai tudo”, conta sem disfarçar um certo desgosto próprio de quem vê em risco uma actividade que segue desde criança. “Mas como se pode continuar se nem conseguimos ganhar para pagar a electricidade”, frisa, sublinhando que nos seus contactos com a Câmara Municipal nunca conseguiu resolver o problema do ataque dos cães vadios. “Foi nos anos de 2018 e 2019 e a indemnização foram os tais dois mil euros. Nunca fui compensado pelos prejuízos, nem apoio do veterinário municipal tive. Não veio cá sequer dar uma injecção”, conta.

Manuel Simões não esconde a frustração por se considerar abandonado por todas as entidades. “Avisei a Câmara Municipal e a GNR. Ninguém fez nada. A GNR chegou a estar aqui e os cães ali deitados tranquilamente, porque chegaram a vir matar as ovelhas aqui à porta”, conta, salientando que chegou a pedir uma arma de dardos à Câmara Municipal. “Disseram-me que não tinha competência para a utilizar. Ainda assim com umas gaiolas apanhei alguns e mandei uma mensagem ao veterinário da Câmara para se verificar se os cães tinham chip, mas até hoje não recebi qualquer resposta”, remata.

Com todos estes desastres, Manuel Simões deixou de produzir queijo certificado, uma vez que quando foi obrigado a deixou de ter leite perdeu os seus principais clientes: o El Corte Inglés e o Intermarché. “Este tipo de clientes não se preocupa com os problemas dos produtores. Não são servidos viram-se para outros. Enquanto vou recompondo o rebanho, ainda agora recebi mais 25 borregas da ANCOSE, achei melhor vender o leite e depois tentar reconquistar o mercado ou encerrar a actividade”, conta.

Além das mortes, Manuel Simões diz que as ovelhas que sobreviveram aos incêndios nunca mais voltaram a produzir da mesma forma. “Diga o que disserem, as ovelhas que sobreviveram nunca mais foram as mesmas”, conta este produtor que certificava cerca de sete mil queijo por ano. “Era mais que os outros três produtores do concelho. Agora vendo o leite que é pago a um euro o litro o que não dá para a electricidade”, repete o lamento, acusando aqueles que tinham obrigação de promover o produto de pouco ou nada fazerem. “Tem a festa do queijo, mas essa está focada noutras coisas. Que Coisas? Noutras coisas”, conclui.

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