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Médico abandona SAP de Oliveira do Hospital em conflito com a Câmara e diz que o presidente do município “se portou como Pilatos”

O médico, que desde 15 de Janeiro, assegurava 12 horas diárias no Serviço de Apoio Permanente (SAP) no Centro de Saúde de Oliveira do Hospital vai deixar o serviço e passar a exercer a sua actividade profissional em Alcácer do Sal a partir do próximo dia 19. O clínico de nacionalidade cubana, com mulher e filha portuguesas, Orelvis Jiménez Fernández, que pretendia fixar-se na cidade, acusa a Câmara Municipal de não ter realizado aquilo com que se tinha comprometido. Refere mesmo que o presidente do município, José Carlos Alexandrino, se portou como Pilatos, lavando as mãos dos problemas, tendo mostrado uma faceta para o convencer a vir para cidade e uma outra quando já tinha o problema resolvido com a presença de médicos no SAP.

A Câmara Municipal, confrontada pelo Correio da Beira Serra, diz não ter conhecimento de qualquer acusação por parte do médico e nega que alguma vez se tenha demitido dos compromissos assumidos. Uma fonte, porém, garantiu ao CBS que este não é um caso único e que, entre outros, pelo menos dois médicos, terão também deixado a cidade incompatibilizados com a autarquia que promoveu um _DCS0072 (Small)programa em que se comprometia a custear o arrendamento, durante um ano, aos médicos que fossem colocados no quadro de clínicos afectos ao Centro de Saúde.

A autarquia, no entanto, assegura que sempre que foi solicitado o Dr. Orelvis foi recebido nos Paços do Município “pelo Presidente da Câmara Municipal, ou na impossibilidade deste, pelo Gabinete de Apoio à Presidência”. Negam igualmente que tenham abandonado o acompanhamento do clínico. “A Câmara Municipal cumpriu sempre com os compromissos assumidos, sendo que todos os pedidos efectuados pelo Dr. Orelvis foram atendidos e solucionados, tendo em conta o principio da razoabilidade e o bom senso”, explica o município, salientando que assegurou sempre os custos do arrendamento do alojamento.

Mas na versão deste médico cubano a sua “aventura” em Oliveira do Hospital foi um desastre por culpa do Presidente da autarquia. Quando recebeu a proposta para vir trabalhar para aquela cidade, este especialista em medicina familiar e com um mestrado em cuidados intensivos, de 48 anos, achou que tinha encontrado um local para assentar com a esposa e a filha. A garantia por parte da autarquia de suportar o alojamento foi um incentivo. Além disso, os primeiros contactos com o presidente do município, José Carlos Alexandrino, confessa, não lhe poderiam ter causado melhor impressão. “Foi afável. Mostrou-me todas as partes interessantes do concelho”, conta.

Orelvis  começou a trabalhar no dia 15 de Janeiro. O relacionamento, esse, começou a arrefecer quando se tratou do aluguer da primeira habitação, o que aconteceu no dia 1 de Fevereiro, com o arrendamento de um T3, situado na Rua Eng. Adelino Amaro da Costa. A autarquia garante que o aluguer teve o consentimento do médico. Mas a casa, que foi apresentada ao médico por Nuno Seixas, assessor de presidente da autarquia, revelou-se em pouco tempo longe de corresponder às expectativas. “Vi que era imprópria para este clima, havia demasiado frio que entrava por todos os lados e que era impossível compensar com aquecedores. A verdade é que era muito difícil suportar aquilo. A casa não tinha condições. Porque haveria de estar a mentir, eu que venho de um país humilde e sem recursos ?”, questiona o médico, para quem uma Câmara que pretende implementar este sistema de incentivos tem de ter tudo organizado. O que não é o caso. “Aqui não tinham. Não foi por acaso que fiquei os primeiros 15 dias num hostel enquanto procuravam casa ”, conta Orelvis. Insatisfeito resolveu expor o caso a quem de direito. “Falei com o presidente, expliquei-lhe que vinha de um país pobre e que não queria luxos, mas também não queria miséria. Estava habituado a ser humilde, mas queria as condições mínimas de habitabilidade”, conta.

“Cheguei a atender mais de 80 utentes por dia”

Pelo meio, outro contratempo. O colega (a quem a Câmara também arranjou alojamento) que acompanhou Orelvis para trabalhar em Oliveira do Hospital e com quem deveria repartir o serviço no SAP e o atendimento aos utentes sem médico, aparentemente não gostou e abandonou repentinamente a cidade. “Desconheço a razão”, confessa Orelvis. A verdade é que o trabalho que deveria ser para dois médicos sobrou praticamente só para ele. “A partir de Março fiquei com a totalidade do trabalho para mim, 12 horas diárias em que chegava a atender cerca de 80 pessoas. O trabalho, contudo, nunca foi entrave, até porque contava com o apoio da equipa daquele centro de saúde que são pessoas extraordinárias, fantásticas, que se desdobravam para superar todas as dificuldades”, frisa.

Surgiu, então, outra casa, com uma renda de 600 euros que posteriormente o proprietário baixou para 525 euros. Como o preço era demasiado elevado para o protocolo que a Câmara tinha previsto, o problema foi superado com um acordo em que a autarquia passou a pagar 400 euros, ficando os restantes 125 a cargo do clínico. Porém, segundo o médico, a casa estava à venda e o negócio concretizou-se dois meses depois, o que o deixou novamente sem lar. A  autarquia porém, tem outra versão. Diz que foi o clínico que recusou  esta habitação situada no Vale do Ferreiro, alegando que “o custo de climatização da _DCS0075 (Small)moradia era incomportável”. “É mais uma mentira”, responde Orelvis, adiantando que quando foi feito o contrato de aluguer já se sabia que casa estava em venda. “Para mim aquele local era perfeito e eu estava lá muito bem. De resto, é fácil provar que estão a faltar à verdade. Podem perguntar à proprietária se a casa foi ou não vendida. É muito simples. Inclusive enquanto lá vivi havia potenciais compradores a visitar a habitação ”, acusa o clínico.

“O presidente lavou as mãos como Pilatos”

Foi-lhe depois sugerido pelo município, em Maio, um outro apartamento, continua a referir a autarquia, que estabeleceu contacto para novo arrendamento de um apartamento T4, cujo contrato teve início no dia 1 de Junho e previa o pagamento de uma renda de 375,00€ mensais. “A pedido do Dr. Orelvis o proprietário do imóvel efectuou obras de reabilitação e aquisição de equipamento para a cozinha para que a habitação estivesse de acordo com as pretensões do clínico… Mais tarde, o Dr. Orelvis entregou a chave do apartamento na recepção da Câmara Municipal. Posteriormente, o senhorio contactou a Câmara Municipal inconformado com o investimento que tinha sido feito no apartamento e com a atitude do médico. A Câmara Municipal teve de assumir o pagamento do apartamento que nunca foi habitado, durante três meses, cujo contrato foi resolvido por acordo entre as partes e que terminou em Agosto”. Mais. A autarquia refere que o clínico “entregou a chave do apartamento na recepção da Câmara Municipal e nem sequer deu conhecimento que não iria habitar o alojamento arrendado pelo MOH”.

O médico nega esta versão. Garante que explicou as suas razões a Nuno Seixas, nas quais lhe descreveu que quando deu início às mudanças houve logo os atritos com uma vizinha que fazia um “barulho insuportável” e que terá mesmo agredido verbalmente a sua esposa quando esta lhe pediu para fazer um pouco menos de barulho. “Naquelas condições não podia ficar ali. Depois de 12 horas de trabalho quero paz e sossego e dei conhecimento disso”, conta. Mas a resposta que alega ter recebido de Nuno Seixas não foi a mais cordial. “Se não quer esse apartamento não lhe alugamos mais nenhum”, conta o médico. “Disse-me que já tinham feito muito por mim. A partir daí, a autarquia abandonou-me. O presidente fez como Pilatos. Nunca mais teve tempo para me atender. Tentei ainda duas vezes falar com ele, mas em ambos os casos se mostrou indisponível para me receber”, conta este médico cubano. “Enfim, como digo, o Presidente lavou as mãos como Pilatos e eu fico com as despesas destas mudanças todas”.

Já sem o apoio da autarquia, o clínico procurou então uma alternativa. Encontrou um apartamento que considerou perfeito por uma renda de 325 euros mensais. “Este é muito bom, mas a Câmara já não estava interessada em conversar comigo, nem eu com eles, uma vez que me tinham dito que já tinham feito muito por mim. Já não me sinto bem em continuar aqui. Tomei a decisão de ir para outro lugar. Vou para Alcácer do Sal onde começo a trabalhar dia 19 de Setembro”, frisa Orelvis Jiménez Fernández que se mostra um homem desiludido por tudo o que se passou. Diz que gostou da cidade, dos “excelentes” companheiros de trabalho e da população. Só o comportamento do presidente da Câmara o desiludiu demasiado. “O que me fez é algo indescritível. Venho de um país pobre, mas onde existe respeito. Se não era para respeitar o acordo não se tinham comprometido”, sublinha.

“Este executivo é só show-off, engana os oliveirenses e arrasta os problemas”

Colegas de serviço deste médico também lamentam tudo o que sucedeu e alguns não escondem mesmo algum desagrado por ver partir “um profissional competente” e na última terça feira até lhe promoveram um jantar de despedida. Aparentemente, os utentes também não estão agradados. Um deles, que aceitou falar para o CBS sob anonimato, explicou que o médico era uma pessoa extremamente atenciosa e que um dia acedeu a verificar um raio X seu quando já tinha terminado o seu longo horário de trabalho. “Estava sempre disponível. É lamentável, a ser verdade, o que lhe fizeram. Foi uma pessoa que trabalhou muito e mostrava uma disponibilidade invulgar. Sei que havia mesmo pessoas que lhe pediam para ser o seu médico de família, mas, pelos vistos, não podia exercer esse cargo”, resume. Este facto foi confirmado por um elemento dos serviços do Centro de Saúde que disse ter conhecimento que muitos desses pedidos partiam dos utentes que eram atendidos por ele no serviço prestado àqueles que não tinham médico de família designado. “As pessoas gostavam dele”, remata.

O Presidente da Concelhia do Partido Social Democrata de Oliveira do Hospital não se mostra surpreendido com este desfecho. “Só vem confirmar que este executivo vive de “show-off”. Procura mascarar os problemas e assim engana os oliveirenses e, pelos vistos, os médicos”, refere João Brito vereador dos sociais-democratas na autarquia. “Anda com manifestações, com estas promessas que não passam de espectáculo para o povo ver e assim vai disfarçando e arrastando os problemas, procurando recolher depois os louros quando a Direcção Regional de Saúde do Centro resolve o problema de fundo”, lamenta este elemento da oposição.

O SAP de Oliveira do Hospital está agora a ser assegurado pelos nove médicos que fazem parte do Centro de Saúde. O CBS sabe que em breve devem chegar mais dois clínicos para assegurar o SAP. Nesta altura todos aqueles que foram ouvidos pelo CBS consideram que mesmo com 11 médicos, o Centro de Saúde está longe de dar a melhor resposta a todas as solicitações.

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