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“Não reúno condições objectivas que reputo de indispensáveis, necessárias e até obrigatórias, a uma candidatura à Câmara Municipal”

O ex-presidente da Assembleia Municipal de Oliveira, António Lopes, não se irá candidatar nas eleições de Outubro. O empresário diz que não reúne as condições necessárias para se apresentar a votos, devido a alguns problemas económicos conjunturais que atravessa e que não conseguiu resolver a tempo da data limite que tinha colocado a si próprio que era 1 de Junho. “Por ‘ficha limpa’, mandam as regras, o político deve ser respeitado e até tido como um exemplo na sociedade em que se insere”, explicou ao CBS, adiantando que neste momento tem alguns problemas com a banca e com o fisco. “Não posso andar a ‘pregar moral’, não reunindo os requisitos normais e que a mim próprio imponho”, justifica, mostrando-se convicto que as denuncias que apresentou ao ministério público ainda vão ter consequências para José Carlos Alexandrino.

CBS – Sempre vai avançar com a sua candidatura à CM de Oliveira do Hospital?

António Lopes – Não. Definitivamente não. Neste momento, não reúno condições objectivas que reputo de indispensáveis, necessárias e até obrigatórias, a uma candidatura à Câmara Municipal.

Quais são essas razões?

Sempre defendi que a politica é uma arte nobre. Aliás, a expressão nem é minha. Sendo um facto que a minha vida profissional não me permite exercer cargos executivos, por falta de disponibilidade de tempo. No contexto histórico do último mandato, encarei a possibilidade de o fazer. Tinha e tenho, o dever moral de corrigir o que considero um erro, de que sou, senão o principal, um dos principais responsáveis: a eleição do actual presidente de Câmara. Mas a situação económica que se abateu sobre o País e, especialmente sobre o sector em que me movimento, o imobiliário, criaram-me dificuldades com que, de todo, ninguém contava. Por ser assim, tenho algumas dificuldades com o fisco e a banca. Não considerando que tenha qualquer responsabilidade no facto, a verdade é que se exige a um político idóneo, que tenha a “ficha limpa”. Por “ficha limpa”, mandam as regras, o político deve ser respeitado e até tido como um exemplo na sociedade em que se insere. Logo, não posso andar a “pregar moral”, não reunindo os requisitos normais e que a mim próprio imponho. Quero frisar que, nas últimas eleições, me opus frontalmente contra dois candidatos que a meu ver não reuniam as condições de “fixa limpa”. Foi-me respondido que eram “solidários” e não abandonavam as pessoas nas horas difíceis. Só que acho que não é disso que se trata. Ou se tem condições e avança-se ou não se tem condições e não se avança. Neste momento, acho que não tenho condições. Isso determinou a minha decisão.

Porquê só anunciar essa decisão agora?

Tinha e ainda tenho um negócio em curso que me permite a resolução de todos os meus problemas. Isto é “limpar a fixa”. Só que é um negócio que envolve verbas muito avultadas, estudos complexos, garantias mínimas de sucesso que não dependem só de mim. Tinha fixado a mim próprio como limite o final de Junho, data a partir da qual já não se pode fazer tudo o necessário para o sucesso eleitoral. Não se tendo reunido as condições, manda a prudência e o respeito pelo eleitorado, que tome a posição que estou a tomar.

Não acha que aqueles que o apoiaram nas últimas eleições podem ficar defraudados com esta sua desistência?

Ficam eles e fico eu. Pior que isso, fica o Concelho já que a solução existente defraudou todas as minhas expectativas e por certo a da maioria dos oliveirenses. Houve condições para se alterar, radicalmente, o paradigma das últimas décadas. Mas enveredou-se por um populismo balofo, de festas, egos e subsidio-dependência, deixando de lado a resolução dos verdadeiros problemas do Concelho. A sede e ânsia de protagonismo e o desconhecimento de regras básicas de conduta política criaram uma série de “gafes” que prejudicaram fortemente a resolução dos principais problemas. No caso, estou a referir-me ao IC6 e o gravíssimo e o “insolúvel” problema da saúde.

Ainda tem esperanças que as denúncias que apresentou ao Ministério Público venham a ter consequências para o actual executivo de José Carlos Alexandrino?

Não só tenho esperança, como, se for como é costume, tenho certezas. A semana passada foi preso o meu antigo gestor do “private”, do BES, na Madeira. Eu ando no tribunal também por causa da gestão dele, desde 2008, motivo das minhas dificuldades. Ele, só agora foi preso. Na última sexta-feira, Carlos Pinto, ex-presidente da Covilhã, faltou a um julgamento onde ia ouvir a sentença a que a Relação já o condenou. O crime de que foi acusado, é do mandato 2001 -2005. Chegou agora. Tenham calma. O que está lá tem substrato. A justiça tarda mas chega. E quando forem, vão uns poucos. Escreva que eu disse.

Rodrigues Gonçalves também não foi escolhido para encabeçar a lista do PS à Assembleia Municipal. O que tem a dizer sobre esta decisão?

O Senhor Dr. Rodrigues Gonçalves foi, a vários títulos, a minha maior desilusão. Maior que o próprio Presidente. Tem outra cultura académica e política. Tem outro curriculum e muitos quilómetros nos corredores do poder. Foi durante quatro anos o meu confidente. Estava “morto” no PS local, onde gozava e goza de poucas simpatias. Também devido aos maus resultados obtidos quando foi cabeça de lista. Esta decisão só vem provar o que digo. Havendo rumores que eu seria candidato ao lugar, o PS não arriscou, e jogou o seu melhor trunfo. A postura que teve enquanto presidente substituto e no processo do meu afastamento, foi simplesmente miserável. Confesso que a admiração que tinha, até pelo percurso de vida é igual à desilusão que hoje sinto. Para não ir mais longe…

Como vê o futuro do concelho de Oliveira do Hospital?

O Concelho de Oliveira pela sua orografia, pela experiência empresarial que tem, pelas suas qualidades endógenas tem tudo para progredir. Em vez de festa do queijo para as televisões é necessário uma política efetiva de desenvolvimento e apoio ao verdadeiro e genuíno queijo da serra, em todas as suas vertentes: pastores queijeiras, rebanhos, mercados. O turismo é, hoje, a galinha dos ovos de ouro. Que faz o nosso Município? Perguntem ao Dr. Francisco Cruz o calvário que foi colocar o hotel a funcionar. Hoje, tem que vir para as redes sociais para conseguir coisas tão básicas como placas de sinalização indicativas do Hotel ou uma recolha eficaz dos lixos e sua arrumação. Para o que de facto cria riqueza este executivo mostra aversão. Naturalmente é preciso alterar isto. Temos beleza natural e rios impares, mas, como atrás ficou dito, tudo são dificuldades. Tenho informação que há empresários que procuram o Concelho apresentam projectos e nem o dossier abrem. Assim é difícil. Instalam-se nos concelhos vizinhos. É isto que o novo executivo tem que alterar. O problema da saúde, apesar da sua gravidade, já virou anedota com o seu “projecto revolucionário”. O IC de todas as birras, agora dizem que não falam mais nele. Cansaram-se. Só que ainda não está feito..! O que não falta é com o que o novo executivo se empenhe. Não há muitos anos, Oliveira era o terceiro concelho em receita fiscal no distrito. Progressivamente tem vindo a decrescer. A BLC, em que muito acreditei, virou o “couto privado” que se conhece. Um feudo de gerar e derreter subsídios, muita propagada, mas pouca obra. Durante muito tempo pensei estar ali a alavanca do desenvolvimento empresarial. A prática de gestão tornou-se noutra das minhas grandes desilusões. Agora o executivo já pouco pode fazer. Já o excluíram. Ainda assim há que tentar inverter o processo.

O que é que falhou no projecto que apadrinhou e levou José Carlos Alexandrino ao poder?

Tentou-se eleger um presidente e, como infelizmente acontece por este País acima e abaixo, arranjou-se um “dono”. No primeiro mandato, em minoria e dado o conhecimento do anterior presidente e vice-presidente ainda foi andando. Quando pressionado, saiba-se que por treze vezes lhe foi perguntado o que fazia o Henrique Barreto e como chegou à Câmara. As treze vezes não respondeu. Vejam-se as actas. Foi aqui que me começou a “melar” para atrair o Dr.Paulo Rocha. Desde que se sentiu em maioria, nunca mais ninguém o “atalhou”. Decidia, executava, ao arrepio de tudo e o resto. Consultem-se as actas da Câmara desse tempo e veja-se.Com a maioria absoluta foi o que se conhece. Lei, à boa maneira antiga, é o presidente. Depois virou-se nesta política do populismo barato, em prejuízo de soluções eficazes à boa governação. Enquanto em minoria, entendi ser dever da oposição corrigir. Mas a minha magistratura de influência foi ficando cada vez mais difícil. Com a conquista da maioria absoluta cedo percebi que era a única pessoa que podia tentar o equilíbrio. Mas como estava tudo “faminto”, foi o “assalto ao baú” como disse na Assembleia e pelo qual tentaram incriminar-me.”Agora é a vez dos nossos” disseram-me. Outra vez perguntei qual era o critério. Disseram-me: “que era o mesmo do Mário Alves que não eram anjinhos”. Meteram tudo o que havia para meter e lá andam. E como não queriam consciência crítica disseram-me que, independente sim, desde que fizesse o que pretendiam. Naturalmente “independente é o que é livre”, “o que não se submete”. Tinha que falhar e falhou. Perdeu o Concelho. Perderam os oliveirenses. É isto que é preciso mudar.

 

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