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“Noventa por cento das Câmaras desta região não se preocuparam com o seu povo”

O empresário Fernando Tavares Pereira vai plantar mais de 100 mil árvores na região, fala-nos nos novos projectos e traça balanço dos sectores agrícola e florestal, três anos após a tragédia. Nesta entrevista primeira parte da entrevista concedida ao quinzenário “O Tabuense”, o empresário considera que as autarquias pouco se preocuparam com as suas gentes e que os governantes aproveitam as incursões ao interior simplesmente para fazer política.

“Noventa por cento das Câmaras desta região não se preocuparam com o seu povo”, afirma, acrescentando também que “os governantes vêm cá à região mas não com o intuito de ajudar. Simplesmente para dizerem que vieram cá, para fazerem politica, por vezes, muito baixa”.

É nesta “viagem” pelos pomares da Ribeira, no meio dos pinheiros mansos e bravos plantados no Pedrogão que vão desabrochando nos terrenos áridos que esta conversa com o empresário tabuense se faz, onde se traça o balanço destes três anos pós incêndios de outubro de 2017,

Fernando Tavares Pereira fala com entusiasmo neste seu empreendimento. Depois das “Vinhas da Ira” – assim intitulámos um anterior trabalho em março de 2019 onde relatámos o princípio dos trabalhos em curso nestes montes e vales de Touriz, Cadaval, Quinta do Rio – importa agora falar neste Renascer das Cinzas, pois é fruto do seu trabalho por conta própria, praticamente sem apoios estatais, depois de ter sido um dos produtores mais prejudicados nesta região, que a mancha florestal se vai recompondo.

“Vamos reflorestar tudo o que ardeu, mesmo sem apoios, pois aquilo que nos davam era praticamente uma migalha. Para o ano vamos plantar mais 40 mil pinheiros, no ano passado foram 2500 castanheiros, este ano vão ser umas nogueiras e cerejeiras. Ao todo, vão ser cerca de 100 mil árvores nesta região em mais de duzentos hectares de terreno”, diz, orgulhoso deste seu empreendimento feito com muito suor e, porque não, algumas lágrimas, quando há três anos ele próprio testemunhou esta terra ser devorada pelas chamas do pavoroso incêndio.

Habituado a outros “palcos” empresariais em Portugal e no Mundo, é quase impensável ver Fernando Tavares Pereira de mangas arregaçadas, com o suor a escorrer pelo rosto neste dia de autêntica canícula, descer o pequeno declive para nos mostrar uma charca, ou seja, uma escavação no terreno feita com o objetivo de captação e gestão de águas para fins agrícolas. Aponta, também, para os muros construídos ao longo de várias dezenas de metros que cercam os terrenos para suster as terras. E onde outrora existia um matagal, estão agora plantadas centenas de vinhas que produzem o afamado vinho “Picos do Couto”.

– ”Se é um gosto mostrar tudo isto? Claro que sim, quem gosta da agricultura e da sua terra tem de ter respeito por estas, pois é daí que o povo vive. Sem agricultura não há sobrevivência, sem a floresta não há oxigénio e tudo morre”, sublinha, alvitrando que as Câmaras deveriam fazer reuniões com os proprietários florestais a fim de elaborarem projectos para enviar para as mais altas instâncias governamentais e verem quem tem ou não capacidade para investir. Infelizmente as autarquias locais não têm ideias neste sector, embora haja exceções, como foi o caso de Arganil cuja edilidade vai plantar mais de 5 mil hectares de floresta e eu dou-lhe os parabéns por isso”.

A viagem termina junto à EB123 de Midões onde foram plantadas oliveiras, algumas “exportadas” de outras regiões como é o caso da Covilhã, que vão medrando junto a um cultivo de feijão-frade: “Uma vez que o Estado não apoiou, em vez de as deitar fora, plantamo-las aqui”.

O empresário não tem dúvidas que se houvesse uma atenção redobrada no tratamento e organização da floresta, essa seria uma ação preventiva eficaz contra a praga dos incêndios, onde se “gastam centenas de milhões por ano”.

Acrescenta a esse respeito: “Os prejuízos foram muitos, independentemente da dimensão de cada um e foram-se acumulando ao longo destes três anos. A floresta continua desorganizada, sem apoios, os governantes vêm cá à região mas não com o intuito de ajudar. Simplesmente para dizerem que vieram cá, para fazerem politica, por vezes, muito baixa…mas as coisas continuam pior do que estavam. Prometem mas não cumprem. Repare que do dinheiro que veio da UE para a reflorestação ou organização florestal, pouco se gastou ou quase nada. Há uma grande desorganização e uma falta de investimento nesse sector. Quem quer fazer grandes projectos recebe uma ninhara do Estado. Para quê gastar tempo e dinheiro quando o apoio é quase zero?”

Não receberam apoios para a floresta sendo um dos maiores proprietários aqui da região e que foi bastante penalizado com os incêndios?

– “Recebemos zero. É verdade que os projectos que apresentámos foram aprovados mas com contrapartidas financeiras ridículas. E depois há este problema: hoje em dia quem quiser plantar mais de 5 mil metros quadrados de floresta tem de pedir uma licença. Penso que até 50 hectares deviam deixar fazer. Quando tanto se insiste em fazer coisas grandes como é que se as faz se não há apoios?”

A recente audiência que o Movimento que lidera – a MAAVIM – teve com os deputados da Comissão de Agricultura e Mar foi um passo importante para sensibilizar a classe politica para estes problemas, como refere Fernando Tavares Pereira:

–  “Expressámos aos Srs. deputados a nossa perplexidade pelo facto de haver milhares de agricultores que nunca receberam os apoios prometidos, mesmo tendo feito o requerimento proposto pelo MAFDR. Existem candidaturas por validar do 6.2.2, outras a serem chumbadas e, passados 32 meses, há candidaturas por abrir, principalmente para o chamado Restabelecimento do potencial Produtivo da Floresta e apoio na Agricultura. Os partidos foram unânimes em considerar que nós temos razão. E falámos também sobre a limpeza das matas: se as pessoas não receberam as indemnizações daquilo que perderam, torna-.se difícil terem meios financeiro para efectuarem a limpeza da floresta junto às casas e estradas. E se não têm dinheiro são multadas, os terrenos revertem mais tarde para o Estado através das penhoras. É mais uma forma de desprezar quem vive no interior. Esperamos que, mais tarde, tudo isto se venha a refletir num cartão vermelho a quem não nos tem apoiado. Noventa por cento das Câmaras desta região não se preocuparam com o seu povo. Deviam ter-se juntado e exigir ao Estado que o dinheiro que veio da UE fosse reinvestido na Floresta. Vieram milhões e esta região ficou abandonada. Se nada se fizer, a desertificação vai ser cada vez maior e o povo deixa de acreditar nas instituições. Todos somos portugueses e o país deve ser visto como um todo e não haver regiões marginalizadas. Porque é que não se proporcionam meios para se investir de igual forma desde que haja quem queira apresentar  projetos fiáveis?”.

(Entrevista concedida ao quinzenário “O Tabuense” distribuído hoje)

TEXTO: JOSÉ LEITE

FOTOS: MANUEL PEREIRA

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