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O que aconteceu ao ex-libris do Concelho: A Indústria de Confecções. Autor: Carlos Brito

 “Cada opinião é uma visão de história pessoal. Por isso qualquer julgamento é uma confissão” ( Nicola Tesla, físico 1856-1943)

Em 1993 Oliveira do Hospital era o 3º maior exportador (49.739 contos) * do distrito de Coimbra e em 1998 tinha o 3º maior rendimento per capita do distrito com 1.039,2 contos atrás de Coimbra (1.889,2) e da Figueira da Foz (1.241,6) *

A causa deste efeito deveu-se à Indústria de Confecções, iniciada nos anos 60 e que se tornou, por direito próprio, um ex-libris do Concelho mas cuja importância para o seu desenvolvimento económico e social nunca foi devidamente reconhecida e valorizada quer pela sociedade civil, quer pelo Poder Político.

Oliveira do Hospital era uma Vila pacata, muito provinciana, no verdadeiro sentido da palavra, rural, com um dinamismo económico e cultural muito rudimentar. O retrato de um Portugal modesto, tímido, conservador, salazarista dos quatro costados, mas já com indícios de uma “agitação” politica, económica e social que explodiu nos anos 60 com a Indústria de Confecções.

Homens atrevidos, alguns oriundos de aldeias vizinhas, imigrantes em Oliveira do Hospital, vendedores ambulantes, alfaiates ou barbeiros, com a 4a classe ou menos, mas gente atrevida, sem medos e sem temerem riscos, criadores de riqueza e de emprego, invejados pela sociedade e pelas elites conservadoras, que não gostam de self-made-men, impulsionaram e contribuíram para transformar esta Vila pacata e serôdia numa Cidade irreverente e ambiciosa no ano de 1993, com uma invejável posição económica e social que a catapultou para todo o Mundo!

Mas, a maior riqueza que os Homens das Confecções empreenderam foi a revolução social que iniciaram!

Com efeito, o impacto desta revolução social proporcionou a libertação e independência económica das mulheres. Umas, que mal saídas das escolas iam para Lisboa como criadas de servir ou a trabalhar na jorna de sol a sol, para reforço do rendimento doméstico dos pais, outras, donas de casa sem remuneração, puderam ir trabalhar nas fábricas de confecções, o que lhes proporcionou uma autonomia e independência antes inimaginável numa sociedade machista e conservadora.

Foram famílias inteiras de todo o Concelho e até dos concelhos limítrofes, de várias gerações (pais, filhos e netos) que trabalharam e trabalharão por largos anos nas Confecções, a quem foi proporcionada uma melhor educação para os filhos, a compra de casas, carros e outros bens que, até então, nunca imaginaram ser possível.

Dificilmente se encontrarão famílias Oliveirenses que não tenham ligações a esta revolução económica/social, tão menosprezada pelo Poder Político e pela sociedade elitista de Oliveira do Hospital!

Foram Alexandre Brito, Amândio Cruz, António e Mario Mendonça, Fernando, José e Pedro Silva, verdadeiros “bandeirantes” do Concelho, que originaram um progresso na educação, na saúde, na habitação, no desenvolvimento do comércio e de outras indústrias, ao darem trabalho directo a mais de 2300 pessoas e indirectamente à maioria da população do Concelho.

Após o 25 de Abril, o Partido Comunista Português apelidou esta gente de “ladrões e exploradores da classe trabalhadora”!

Nos anos 80 e subsequentes, mais empreendedores, destemidos e determinados, contribuíram para o desenvolvimento das Confecções no Concelho. Carlos Andrade, António Correia, Belarmino, António Fontes, Armindo Monteiro, José Mota, António e Amadeu Seabra, e posteriormente Francisco Baptista, Nuno Caetano, Joaquim Pratas e Mulheres como Birguita Razo, Rosinha Campos, e Vitória Madeira que deixaram exemplo de dinamismo e trabalho.

Estes empreendedores ombrearam com um dos grandes e talvez o maior visionário do Concelho, o Sr. Armindo Lousada, oriundo de uma elite social bem diferente, empreendedor de negócios de cobertores, elásticos, bordados, baterias “royal”, laranjadas e pirolitos Ameal, Confecções Iral, a metalomecânica IRAL, de repercussão nacional, cuja evolução só não teve maiores consequências porque, seguramente, os seus mais próximos, não acreditaram ou apoiaram devidamente as suas visões.

Claro que o Concelho conheceu, dos anos 20 aos 60, outros grandes empreendedores, que retirei da revista Ipsis Verbis *,mas onde não consta qualquer referência aos homens das Confecções que deixaram um enorme Legado.

Na verdade, a história é feita por narradores vencedores ou por elites dominantes…

Na revista recordam-se Homens como Júlio dos Santos, fundador do primeiro “hiper -mercado”, berço de outros grandes empreendedores como José Marques de Assunção, ou Irmãos Lagos. Recordo a conceituada firma Higino Almeida Ruas, lembro, com boa lembrança, o artista do cobre, Sr. Carlos Faria da Cunha, não esquecendo António Monteiro, Luciano das Neves, Sociedade de Fazendas das Beiras, Tibério Cabral e o Engº António Loureiro, de saudosa memória, de alto espírito empreendedor na indústria de construção civil, madeiras e fundador dessa grande empresa que é a AGLOMA.

Então quais as causas do retrocesso económico e social do nosso Concelho? As causas foram do Poder Político?

Deixemos, por agora, o Poder Político e as suas enormes culpas para outro artigo e faça-se ajustiça de referir outro responsável- Nós, os empresários!

A responsabilidade é também dos empresários, que se comprometeram com responsabilidades sociais com uma vontade, ambição, coragem, sacrifício e luta permanente por uma vida melhor, na concretização dos seus sonhos e visões, mas que se deixaram influenciar por um individualismo provinciano, um egoísmo vaidoso, medo ao associativismo, ao diálogo, ao debate, coisas tão presentes no comportamento psicossocial do nosso Povo e, em particular, das nossas gentes do Interior, que nos leva a valorizar mais o que vem de fora, o restaurante, o comércio, o emprego, o médico, o clube, o amigo, o trabalhador importado, em desprimor do nosso, da nossa Terra!

Não entendam isto como um choro de velho pelos tempos passados, mas como um sino, avisando-nos da nossa inércia e alertando os jovens empreendedores, agora à frente das Confecções e de outras indústrias, para os erros e sucessos das gerações anteriores.

Os responsáveis pela explosão económica dos anos 60/90, refugiaram-se no seu conquistado pedestal, perdendo oportunidades de crescer, ao repudiarem o associativismo como a participação na ACIBEIRA, movimento associativo da Beira Interior.

A ACIBEIRA era uma das locomotivas mais úteis e promissoras para poderem beneficiar de novas tecnologias, novas formas de gestão, novos processos, Inovação, abrindo novos caminhos e janelas para o futuro das empresas mas, a grande maioria dos empresários, preferiu continuar “orgulhosamente sós” e perderam a boleia.

Com efeito, em 2001 a China entrou na O.M.C. para conveniência das grandes multinacionais e das grandes empresas industriais e comerciais do mundo Ocidental (onde Portugal pouco representava), o que lhes permitiu deslocalizar as suas produções e adquirirem produtos mais baratos e, portanto, de maior rentabilidade. Foi uma revolução económica (globalização) que permitiu ter, a curto prazo, três grandes beneficiários: O Consumidor, a China e as Multinacionais!

O mundo Ocidental escolheu o caminho mais fácil: comprar, vender, especular, em vez do difícil: Produzir e transpirar!

As Confecções, base do nosso crescimento Concelho, eram um dos produtos mais em risco, caso não houvesse inovação e adaptação tecnológica!

Qual foi a reacção dos industriais?

Escolherem o caminho mais fácil: o Presente, esquecendo o Futuro e pensarem que os dias difíceis tinham passado, quando todos os dias são difíceis requerendo

constante inovação tecnológica, constante formação e hoje, mais do que nunca, uma aproximação a trabalhadores e ao mercado.

carlosbritopt@yahoo.es,…….fundador da Davion

Abril,28,2023

* PEDRO NOGUEIRA RAMOS – Professor Associado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Instituto Nacional de Estatística

* PORDATA.pt

* IPSIS VERBIS nrº 6- Maio de 2013-PERSONALIDADES. Luis Filipe Torgal, Célia Lourenço, Francisco Henriques

Autor: Carlos Brito

*Empresário e fundador da Davion

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