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“O que está a acontecer supera os meus piores receios… as promessas destinadas ao interior continuam a cair…”

“A ministra Marta Temido tem sido demasiado nefasta para continuar a liderar a saúde, deve demitir-se rapidamente” diz o empresário Fernando Tavares Pereira que foi candidato a deputado pelo círculo de Coimbra nas últimas legislativas em entrevista ao CBS. Não foi eleito. Mas continua activo e a fazer aquilo que considera ser um dos seus deveres: “a defesa do interior”. Está desiludido com o desempenho dos deputados e diz que Coimbra está a perder tudo, incluindo valências na saúde onde já foi uma referência a nível internacional. Considera que o Governo voltou a deixar cair as promessas como o IC6 e IC7 e que quase conseguia colocar em prática uma carta de perigosidade dos incêndios que “ia matar definitivamente a região do interior”.

CBS – Foi candidato a deputado e apresentou-se como um defensor do interior. Não foi eleito. Qual é o balanço que faz dos escolhidos pelos territórios de baixa densidade?

Fernando Tavares Pereira – Temos de fazer uma distinção e destacar dois distritos: o da Guarda e Coimbra. Nem um, nem o outro, têm tido deputados competentes. Nos últimos 20 anos, estes distritos perderam cerca de 120 mil habitantes. Os deputados que para lá vão não defendem os interesses da região. Há deputados que enquanto presidentes de Câmara diziam que se demitiam caso não fossem concluídos ou construídos os IC6, IC7 e IC37. Essas nunca foram concluídos ou construídos, mas também ninguém se demitiu. Têm agora uma nova oportunidade. Se são deputados do partido que apoia o Governo e mantém a mesma convicção, então devem dizer aos detentores dos cargos de poder que se não cumprirem as promessas eleitorais se demitem. Mas não acredito. Se não se demitiram quando eram autarcas, não é agora que vão deixar o cargo de deputados.

Se tivesse sido eleito, batia com a porta caso não fossem cumpridas as promessas que apresentou aos eleitores?

Não poderia ser de outra forma. Se o Governo não cumprisse o que prometeu, e eu fosse deputado do partido que suporta esse executivo, demitia-me de imediato. Esta gente está farta de ser enganada. Quem ainda fez alguma coisa por estes distritos foi Cavaco Silva. Disseram mal do homem, mas não vi ninguém fazer mais pelo interior.

Colocaria o interesse das populações acima da disciplina de voto existente nos partidos?

Votaria contra os projectos do meu partido se eles fossem contrários aos interesses da população que me elegeu ou prejudiciais ao país. Como poderia admitir que o Governo, mesmo com a aprovação da AR, após os incêndios de 2017, não tivesse transferido para a região os apoios a que as populações tinham direito? Não podia. Tinha de levantar a minha voz contra essa injustiça, mesmo que fosse contra o meu partido.

A verdade é que o PS venceu com maioria absoluta…

Como candidato palmilhei o distrito de Coimbra todo. E vi que, na verdade, as promessas do PS eram muitas. Se fossem concluídas eu ficava satisfeito. O problema é que não passam de promessas que estão a cair, uma atrás das outras e a região continua a caminhar para a desertificação. O povo acredita nas promessas que lhe têm sido feitas ao longo dos anos, como o IC6 e IC7. Tudo promessas vãs. Os ministros que passaram pelos Governos e que prometeram tudo para esta região deviam ter vergonha. São os principais responsáveis pelo não desenvolvimento da área norte da Serra da Estrela. Os empresários têm vontade, força, e tanto que têm resiliência, que muitos se vão mantendo, enquanto outros vão desistindo devagarinho. Também estou aqui e não sei quanto tempo vou aguentar. Não temos acessos, não temos desenvolvimento.

Foi candidato por Coimbra. Está desiludido com o desempenho daqueles que se encontram na Assembleia da República em representação deste círculo eleitoral?

O que está a acontecer supera os meus piores receios. Esta cidade tem perdido quase tudo e continua a perder…. Estamos a falar de uma cidade que era uma referência nacional e internacional em termos de medicina e que neste momento já não tem resposta em algumas áreas. Um indivíduo da minha terra precisou de fazer um exame e foi enviado por Coimbra para Castelo Branco porque essa valência que está em Coimbra não funciona há meio ano. Onde é que isto chegou? Como é que queremos que as pessoas venham para o interior se não têm condições para cá ficar. A maioria absoluta do PS está a demonstrar os seus efeitos.

Coimbra tem perdido tudo. Perdeu o turismo, economia, agricultura. Onde está a descentralização que tanto têm prometido e as obras da campanha eleitoral? O hospital pediátrico já saiu do orçamento, tal como a maternidade. O desinvestimento nos Covões é uma vergonha. O Estado quer claramente acabar com este hospital, que foi uma referência e merecia receber um investimento condigno, e com a saúde em Coimbra. O pior de tudo isto é que não vejo os deputados eleitos por Coimbra fazerem força para inverter este estado de coisas. A ministra foi eleita por Coimbra, mas ela não quer saber do que por se lá passa.

“A Coesão é só para desertificação e não para
o desenvolvimento da população, nem empresarial da região”

 

A saúde não é um problema exclusivo de Coimbra, há dilemas em várias zonas do país…

Estou a falar de Coimbra que foi o distrito por onde fui candidato. Mas na verdade é o caos total. A ministra da Saúde deveria fazer aquilo que está claro para todos: pedir a demissão e ocupar o cargo de deputada. Marta Temido tem sido demasiado nefasta para permanecer no lugar. Está completamente desorientada e sem soluções. Sei que não é só aqui. No Algarve, por exemplo, os doentes oncológicos estão a ser enviados para Sevilha. Que país é este? Onde se gasta o dinheiro dos nossos impostos? Os milhões do PRR para onde vão? Tenhamos tino. Temos de dar dignidade à população, não podemos ter uma saúde para os ricos que podem ir aos privados e os mais pobres. Não pode ser assim.

Este Governo tem falado muito em Coesão Territorial. O que lhe parece aquilo que tem sido feito?

É mais uma farsa para apoiar a desertificação dos nossos territórios de baixa densidade. Todos os dias se fala em coesão e desenvolvimento, mas onde está o investimento no interior. Esta região só serve para se conseguirem fundos europeus que depois vão para o litoral. Não foi por acaso que alargaram desta forma as NUTS [Nomenclatura das Unidades Territoriais para Fins Estatísticos]. Foi para permitirem que os fundos atribuídos aos territórios de baixa densidade fossem alegremente para o litoral. Nem o dinheiro que veio para a recuperação dos incêndios cá ficou. Foram-se embora cento e tais milhões de euros. A Coesão é só para desertificação e não para o desenvolvimento da população e empresarial da região.

Não estará a ser excessivamente pessimista?

Vê alguma obra aqui para o interior? O que vejo é a polícia a fiscalizar o excesso de velocidade. Depois os nossos municípios também fazem muito pouco. Seia, Gouveia, Celorico da Beira, Oliveira do Hospital e Guarda deviam dizer que Turistrela tem de acabar, porque o seu monopólio não deixa desenvolver a zona norte da Serra da Estrela. Se todos se juntassem, fizessem força e pressão, as coisas mudavam. Olhe, dou os parabéns aos presidentes da Covilhã e do Fundão que foram competentes e têm concelhos desenvolvidos. Por outro lado, enquanto Viseu quiser o IC6 e o IC7 nunca serão feitos. Defendem os interesses deles, enquanto que do nosso lado não se importam.

“Para o Interior, a delegação de
competências é um desastre. Prevejo um futuro negro”

Viseu também se queixa que o problema do IP3 nunca mais se resolve?

O IP3 é não é um problema só para Viseu. É de toda a região Centro. E aqui não podemos culpar só este Governo. Tanto prometeu o PS, como o PSD e nenhum deles cumpriu. Os socialistas têm mais responsabilidades. Nos últimos anos estiveram no Governo 20 anos e o PSD sete. É uma diferença considerável. A verdade é que o meu partido também não cumpriu e não tem levantado o problema na Assembleia da República com a relevância que merece. As autarquias e estas CIM’s são igualmente coniventes com este estado de coisas por omissão. Porque não se juntam na defesa destes desígnios? O problema é que apenas lhes interessam os cargos.

É a favor ou contra a regionalização?

Se é para ser feita de forma apressada e imposta, como tudo indica, sou contra. É algo em que têm de ser discutido com as pessoas. Todos os sectores têm de ser ouvidos e é algo que deve ter um grande consenso porque esta debandada para o litoral não é benéfica para ninguém.

Está em curso o processo de delegação de competências nos municípios. Não considera que pode ser um passo na descentralização?

Para o Interior, a delegação de competências é um desastre. Prevejo um futuro negro. Os presidentes das Câmaras batem palmas a quê? Para ganharem eleições. O futuro depois será negro. Não vão ter capital para arranjar escolas, estruturas de saúde ou justiça…. Só vão tirar mais-valias aos municípios. Quem governa não pode esquecer que há municípios com 47 por cento de custos com pessoal. Como é possível? Isto acontece porque grande parte daqueles que se encontram à frente das Câmaras Municipais nunca tiveram uma perspectiva empresarial, porque se assim fosse teriam outra visão dos problemas. Os autarcas deviam ter o bom senso de ouvir os vários sectores. Mas isso é algo que aqueles que se encontram no poder acham que os poderia menorizar, quando, pelo contrário, seria um sinal de inteligência. Quem não sabe ouvir, não sabe decidir.

Também existe um certo alheamento dos empresários em relação às eleições…

Os empresários que se metem na política são perseguidos. Sei daquilo que falo, porque sinto isso na pele, com uma perseguição atroz. Isso assusta os empresários que também não estão não dispostos a exporem-se numa área como a política, que não tem a melhor conotação. Muitos empresários têm o saber e vontade para imprimir outro desenvolvimento ao país. Mas sabem que podem sofrer com isso. Repare, nas últimas legislativas houve uma instituição de cariz social em Oliveira do Hospital que não recebeu a comitiva do PSD porque o senhor é do PS. Isto é impensável, uma vergonha…. Colocam a política acima das acções sociais deste país. Mais, sempre procurei ajudar aquela instituição. Se um dia for preciso eu digo onde e quem foi.

O que defende para o interior?

Tudo o que o resto do país tem direito. Desde bons acessos, serviços e um apoio para as florestas como, por exemplo, acontece com a agricultura no Alentejo. Todo o país tem de ter o mesmo tratamento. Temos de juntar os empresários, os municípios e fomentar uma floresta organizada. Repare: eu plantei 80 hectares de pinhal sem qualquer tipo de apoio. Mas quem tem estas iniciativas corre imensos riscos, porque o vizinho pode ter o terreno cheio de mato, facilitando os incêndios. Os próprios terrenos do município não estão limpos. Ou seja, fazemos sem apoios e corremos o risco de vir um incêndio e levar tudo. Não há uma organização para que exista uma regulamentação agrícola e florestal na região. Os deputados daqui pensam neles. Eles deviam vir para o terreno e criar as condições para fixar populações e permitir o investimento na floresta e agricultura. Quando me candidatei era precisamente isso que pretendia fazer. Os deputados para decidirem têm de conhecer as necessidades de quem os elegeu e o que se está a fazer. Esta é a minha forma de fazer política e de estar na vida. Gosto de ouvir para poder decidir.

Foi uma das primeiras vozes que se levantou contra a Carta de Perigosidade de Incêndio Rural…

Esta carta ia matar definitivamente a região do interior. As Câmaras Municipais não foram ouvidas, por isso, o decreto devia ter caído de imediato. É mais uma daquelas situações incompreensíveis e que nos leva a perguntar o que estão lá a fazer os deputados desta região. O que tem de se fazer é uma reorganização profunda. Falar com autarquias, NPC, fazerem um enquadramento geral como deve ser. Realizar uma organização florestal com a dignidade que merece. É preciso saber onde estamos e para onde queremos ir. Só depois disso é que se pode fazer um decreto com um enquadramento geral da floresta e da agricultura. Quem está em Lisboa não pode dizer: está aqui e pronto. O que espero que reconheçam que este decreto está enterrado e que se vão fazer as coisas com cabeça tronco e membros.

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“Quem esteve na Câmara nestes 12 últimos anos é o grande responsável pelos problemas do FC Oliveira do Hospital”

CBS – Tem sido um critico da também da gestão autárquica em Oliveira do Hospital. Foram assim tão desastrados os últimos anos?

Oliveira do Hospital há 30 anos que está parada. A cidade não teve um plano de desenvolvimento e pouco ou nada tem vindo para cá. A BLC3, onde estive envolvido, juntamente com o engenheiro António Campos, para conseguirmos junto do ministério da Agricultura meio milhão de euros para a primeira pedra. Foi o último projecto que chegou a Oliveira do Hospital. A cidade deveria ter um planeamento com visão de futuro, por exemplo, com uma circular externa à cidade, permitindo o comércio de um lado, serviços de outro, a indústria de outro… O que aconteceu foi o contrário. Afunilaram a cidade. Mataram Oliveira do Hospital. Estão a juntar tudo o que é comércio no centro. E o acesso para lá chegar? É como a zona industrial, onde se gastaram 7,5 milhões de euros, e fica ali no meio de nada sem acessos para lado nenhum. Nem IC6, nem IC7 que já nem existe no quadro do Governo. Havia um autarca que dizia que se demitia se o IC6 não fosse feito. O projecto não está no Orçamento de Estado e ele está lá caladinho no conforto da posição de deputado.

Fernando Tavares Pereira – É uma pessoa ligada ao desporto e um mecenas das colectividades locais. Como é que vê a incerteza sobre a possibilidade de o FC Oliveira do Hospital participar na Liga 3, depois de uma temporada em que teve de treinar e jogar fora do concelho?

O município tem aqui grandes responsabilidades. Em 12 anos a Câmara podia fazer tudo, mas teve um presidente que durante este tempo não fez nada para que Oliveira do Hospital tivesse um estádio condigno. Uma pessoa que até vinha do desporto [o anterior presidente José Carlos Alexandrino] devia ter um bocadinho de bom senso. Se houvesse estruturas, o clube não teria estas dificuldades que colocam mesmo em causa a participação nas provas para as quais se qualificou. O concelho tem um tecido empresarial activo. Disposto a ajudar e a participar. Com infra-estruturas, as verbas necessárias seriam conseguidas e não se entregava o futebol a outros. Mas tudo isto devia ter sido feito com o devido tempo. Desde logo com a compra de um terreno para construir o estádio noutro local. Mas a Câmara só viu as grandes superfícies comerciais e esqueceu o desporto. Esta inércia pode acabar também com outras actividades desportivas do concelho. Quem esteve à frente do município nestes últimos anos é o grande responsável. Não adianta procurar desculpas. Quero dizer, ainda assim, que já manifestei ao presidente do clube, Mário Brito, que ajudaria naquilo que fosse possível.

O estádio está agora sem grandes possibilidades de se expandir…

O mal é precisamente esse. Fazem tudo ao monte e fé em Deus. Estão a afunilar ali o trânsito todo. Se há um problema qualquer é uma chatice. Ninguém sai, nem ninguém entra. Falta visão de futuro a quem tem estado entregue a Câmara e quem não tem essa visão não devia exercer cargos públicos. Só alguém assim construía uma zona industrial no meio do nada. Sem acessos em condições para lá chegar. Deveriam ter feito o que prometeram que era uma zona industrial em Nogueira do Cravo, Venda de Galizes, e outra zona industrial, onde seria desenvolvida uma estrada de quatro faixas de acesso.

É um crítico das grandes superfícies?

Pelo contrário. É bom que estas empresas escolham o concelho para investir. Coisa diferente é a forma como está ordenada a cidade. Merecia outra atenção. Temos num raio de alguns metros quatro hipermercados. É algo que não faz sentido. Seia, por exemplo, não tem estas estruturas concentradas no centro da cidade. Esta concentração nem sequer é para o presente, neste momento o espaço já está saturado.

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