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O setor do ensino como símbolo de modernidade. Autora: Cláudia Saraiva

Partindo da realidade de que Portugal desde a década de 70 do século XX, é um dos países que apresenta os índices mais baixos de escolaridade, atualmente, o nosso país luta para desenvolver progressivamente as demais estruturas de ensino. Primeiramente ao nível do ensino básico, seguidamente do ensino secundário e, posteriormente, através da criação de uma rede universitária e politécnica que conduza à preparação e apuramento das aptidões dos demais alunos para futuramente vingarem no ensino superior.

Em 2019, Portugal foi considerado o país com um nível de educação mais baixo da União Europeia, com apenas 52% da população a ter concluído o ensino secundário e/ou superior até 2019 o que faz com que o nosso país se destaque negativamente por se encontrar no último lugar da tabela, a cerca de 26 pontos percentuais abaixo da média da União Europeia que ronda os 78%. Muitos autores defendem que este baixo nível de literacia da população portuguesa é uma das causas de alguns dos maiores problemas em Portugal, o baixo crescimento económico causado pelos baixos níveis de produtividade que, por sua vez, levam ao decréscimo dos salários, fazendo com que os trabalhadores deixem de se identificar com o sistema implementado o que, por sua vez, conduz ao aumento gradual das taxas de abstenção eleitoral fruto da contínua fraca exigência com o poder político. Um dos motivos que pode estar na génese desta realidade é o facto de Portugal ser um dos mais antigos membros da União Europeia e que historicamente necessitou de apostar na alfabetização da sua população para que fosse possível falar a mesma língua em todo o país. Outro fator relevante é o facto de Portugal ter vivido 40 anos sobre um regime ditatorial onde não se apostava na Educação, pois o baixo nível de literacia e qualificações tornava mais simples o controlo à população. Se analisarmos outros países que também foram sujeitos a estes regimes fascistas durante o século XX, como foi o caso de Espanha e Itália, rapidamente verificamos que também se encontram no fim da tabela da União Europeia no que diz respeito ao nível educacional das suas populações. Ainda assim, é importante ressalvar que Portugal em 1998, apresentava menos de 20% da população com o ensino secundário e/ou superior e passou para mais de 52% da população no ano de 2020.

Após 35 anos da publicação daquela que é a Lei de Bases do Sistema Educativo, 5% da população portuguesa é analfabeta e o abandono escolar ainda ultrapassa os 11%. Ainda assim, é certo que no interior do país esta taxa vai além dos 20% o que se explica pelo rápido processo de litoralização, no que toca à localização das principais dinâmicas de desenvolvimento económico-social, a visível presença de oportunidades daí decorrentes e consequente fixação da população, na grande maioria jovem e qualificada. No interior encontramos um cenário díspar pois tem-se vindo a observar a rápida e dura perda permanente de oportunidades, recursos, investimentos e pessoas que afetam a economia. É neste contexto territorial, demográfico, económico e social que um conjunto significativo de Instituições de Ensino Superior localizadas no interior têm tentado lutar para garantir a sua sobrevivência, cumprirem as suas missões, no pressuposto de que, da sua ação, dependerá também, a sustentabilidade desses territórios.

Oliveira do Hospital pertence aos concelhos que constituem o quadro, assimétrico e socialmente injusto, de desenvolvimento do país, que de forma geral têm vindo a assistir à perda progressiva essencialmente de pessoas, de investimentos e da economia. E, não menos importante, é um dos concelhos do interior do país que lida com as fortes clivagens entre o litoral e o interior, distantemente desprezado pelo poder central e com graves dificuldades no que diz respeito ao ingresso no ensino superior. Para além de Oliveira do Hospital se debater com estas questões territoriais ainda apresenta algumas lacunas que impossibilitam o seu desenvolvimento, visto que, é uma das muitas cidades que sofrem com as consequências do crescimento da oferta de ensino, superior e profissional como é o caso da Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Oliveira do Hospital, pois, todos os anos, constata-se que aproximadamente 30 alunos não procedem à matrícula nas escolas locais por existir uma enorme carência de alojamento. O município debate-se com esta problemática há anos pois a oferta não consegue responder à crescente procura e, acredito que a sua resolução passa por começarmos a olhar para o espaço e, consequentemente, para o modo como o ordenamos.

Na oferta existente é perfeitamente percetível a inflação dos preços comparativamente com anos anteriores. Nos dias de hoje, os preços variam entre os 160€, nos arredores da cidade, e os 200€, no centro da cidade. Assim sendo, por ser considerado um dos principais pilares de desenvolvimento, não só para o município de Oliveira do Hospital, mas também para os municípios limítrofes, esta deve ser considerada uma problemática que carece de uma rápida e eficaz resposta por parte do município.

Por tudo o que foi dito anteriormente, a Educação deverá ser considerada o melhor e o mais poderoso investimento que um país pode fazer. Os benefícios individuais são evidentes, na medida em que se criam pessoas mais educadas e formadas, propensas a receber melhores salários e mais exigentes com o poder político. Mas para além do retorno pessoal, um bom investimento em Educação irá acarretar grandes benefícios públicos que irão notar-se nas menores taxas de abstenção nas eleições e melhor qualidade de vida no geral. Não é aceitável que o nosso país continue a tratar, de igual, Instituições de Ensino Superior que apresentam contextos distintos, com impactos diferentes no desenvolvimento das regiões e assumem um papel importantíssimo naquela que é a coesão social e territorial da sua região.

 

 

 

Autora: Cláudia Saraiva

Vogal da Juventude Popular de Oliveira do Hospital e estudante do Mestrado de Administração e Gestão Pública 

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