Home - Últimas - Os 3,5 quilómetros do descontentamento de Vilar Formoso e Fuentes de Oñoro

Os 3,5 quilómetros do descontentamento de Vilar Formoso e Fuentes de Oñoro

Ligação da A25 à auto-estrada A62 desviou o trânsito das duas localidades fronteiriças e economia local vive momentos de angústia

Portugal e Espanha estão agora ligados por uma auto-estrada que desviou o trânsito de duas localidades de fronteira icónicas: Vilar Formoso e Fuentes de Oñoro. Os portugueses que trabalham do lado de lá da fronteira temem pelos seus empregos, como do lado de cá. Os autarcas das duas localidades não deixaram de criticar os governos de ambos os países que prometeram muitos projectos que nunca saíram do papel e que deviam compensar a economia local pelas consequências desta obra.

Jonathan Gimenez cumprimenta-nos em português, antes de nos servir um café. Trata-se, apesar do nome, de um dos jovens portugueses que optou por trabalhar numa cafetaria do outro lado da fronteira, em Fuentes de Oñoro, a dois passos de Vilar Formoso. Gimenez, 23 anos, confessa que está preocupado com os efeitos no comércio local e, consequentemente, nos empregos da ligação entre a A25 à auto-estrada espanhola A62. As duas localidades, que eram locais de paragem quase obrigatório, com a inauguração dos novos 3,5 novos quilómetros, limitam-se agora a ver passar o trânsito. “O número de clientes baixou cerca de 50 por cento e ainda estamos na época das festas, porque depois acho que vai piorar”, lamenta este jovem que há quatro anos trocou os estudos pelo trabalho. “Vamos ver o que o futuro nos reserva”, diz encolhendo os ombros.

O novo troço foi inaugurado em Dezembro e transformou-se na principal ameaça para o futuro das duas localidades fronteiriças. A obra que deveria ser de satisfação revelou-se uma enorme desilusão para as populações que não escondem o desalento. De um lado e do outro começam a surgir as placas de venda e de encerramento de estabelecimentos. Os populares acreditam que, depois da COVID-19, este pode ser o derradeiro golpe para a economia nas localidades da maior fronteira portuguesa.

“Também deverá encerrar uma das duas estações de serviço”

“Tínhamos aqui 20 autocarros por dia. Com a pandemia o número teve uma forte quebra, agora vai certamente piorar”, confessa José Miguel, de 50 anos, mais um português a trabalhar em Fuentes de Oñoro, na empresa LA Pedresina, um empreendimento que engloba restaurante, supermercado e estações de serviço. E o emprego é agora uma preocupação, até porque desta empresa já saíram quatro funcionários e deve haver mais cortes. “Também deverá encerrar uma das duas estações de serviço”, conta José Miguel.

Em Vilar Formoso, o desânimo entre os comerciantes também é notório. Na marisqueira BA 101, ponto de atracção para quem passava, agora está aberta apenas para os amigos. O proprietário dispensou os cinco funcionários no pico da pandemia e já não vai voltar a colocar o restaurante a trabalhar. “Este é o golpe definitivo nesta terra. Os camionistas que antes paravam aqui, agora passam e andam. Aqueles clientes que aproveitavam para vir aqui almoçar ou jantar, agora já não estão para sair e voltar a entrar na auto-estrada. Os políticos não se lembram de nós, estou farto das promessas deles”, conta João Jorge, de 68 anos, que já colocou o estabelecimento à venda. “Tenho aqui mais de 500 mil euros, mas nem por 250 mil euros lhe pegam”, remata, salientando que mantém a porta aberta para “passar o tempo”. “Já se via pouca gente devido à COVID-19, agora fica quase tudo deserto. Nem a feira [muito conhecida] se salva”, conclui.

“Talvez sejamos nós, caro Isidoro [homólogo do outro lado da fronteira], a última geração que viu crescer as nossas respectivas terras”

Estas preocupações da população foram, de resto, vincadas pelo presidente da Câmara Municipal de Almeida no dia da cerimónia de inauguração. António José Machado considerou que este é mais um revés para aquele território fronteiriço. “Não resiste”, disse o autarca, apelando à intervenção dos dois governos para esta região recuperar a sua capacidade competitiva. “Talvez sejamos nós, caro Isidoro [homólogo do outro lado da fronteira], a última geração que viu crescer as nossas respectivas terras”, frisou, dirigindo-se ao alcaide de Fuentes de Oñoro, Isidoro Alanis Marcos que também se mostrou muito critico em relação a todo este processo.

“Queria que os governos deixassem a retórica, as promessas e passassem a colocar as equipas a trabalhar no terreno se não quiserem ver estes territórios desaparecer em breve. A situação é grave”, continuou António José Machado, recordando o que ficou por fazer desde 18 de Julho de 2019 quando foi assinado um protocolo de cooperação designado de Projecto Integrado de Intervenção, Reabilitação e Revitalização da Zona de Fronteira. “Passava por reinventar o posto de turismo como centro de vocação comercial, turística e de lazer capaz de atrair consumidores diversificados e com poder de compra. Mas nada foi feito. Estamos a aguardar”.

“Não coloquem Vilar Formoso escondida atrás de barreiras acústicas”

A reabilitação do parque TIR e das respectivas estruturas de apoio, diz, também foram esquecidas pelo Governo de António Costa. O autarca frisou ainda que foi lançado o concurso para a elaboração dos projectos a realizar pela Câmara Municipal de reabilitação do espaço, de ligação a Vilar Formoso e ao nó em lado espanhol. Mas ainda não se sabe como será financiado. “Os projectos estão em curso, espero que a conclusão esteja para breve, mas ainda não sabemos através de que programa irão ser executados”, avisou António José Machado. “Temos trabalho feito, projectos a finalizar, precisamos que se passe das promessas à realização destas obras que tanta falta fazem para não perdermos ainda mais a esperança”, sublinhou.

O presidente da Câmara de Almeida acabou por pedir ao secretário de Estado das Infra-estruturas, Jorge Delgado, para não colocar Vilar Formoso escondida “atrás de barreiras acústicas”. “Quem não é visto, não é lembrado, ou melhor não é procurado”. O governante, porém, resumiu tudo a um lacónico: “nada está esquecido”.

O representante do governo espanhol optou por enaltecer a relação entre os dois países, deixando de lado a preocupação das populações locais. “Devemos estar felizes pela magnífica colaboração e compreensão entre os dois governos em uma acção que, além disso, do ponto de vista técnico é muito notável em um eixo europeu de comunicação de grande importância”, disse, por seu lado, o director-geral das Estradas do Ministério dos Transportes, Mobilidade e Agenda Urbana, Javier Herrero.

Segundo a Infra-estruturas de Portugal (IP), com a abertura deste troço com 3,5 quilómetros entre Vilar Formoso e a fronteira, “a A25 fica concluída em toda a sua extensão, ligando directamente o Porto de Aveiro a Espanha através de auto-estrada”. A obra exigiu um investimento de 13,2 milhões de euros. A cerimónia de assinatura do contrato da empreitada decorreu no dia 20 de Novembro de 2018, em Vilar Formoso, com a presença do primeiro-ministro, António Costa.

LEIA TAMBÉM

Acidente mortal no IC3 obrigou ao encerramento do trânsito

Uma pessoa morreu e outras duas ficaram feridas na sequência de uma colisão frontal entre …

Mónica Quintela diz que os deputados eleitos pelo PSD vão “alavancar o distrito de Coimbra”

A cabeça de lista do PSD por Coimbra mostrou-se hoje convicta que o PSD poderá …