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Pastores admitem reduzir efectivo de animais devido à seca e consideram que queijo Serra da Estrela pode estar em risco

Paulo Rogério olha para as suas 220 ovelhas que vão “rapando” o que resta do pasto há muito consumido e que não voltou a “rebentar”. Aponta para o vale, portas meias com a cidade de Oliveira do Hospital, onde ainda se vai vendo algo de verde, mas nada daquilo que deveria ser. Encolhe os ombros enquanto vai dizendo que os custos de produção dispararam e a qualidade do leito já não é o que era. A ausência de chuva causa desespero. Paulo Rogério acredita que, a continuar assim, além da quantidade diminuir, a qualidade do queijo Serra da Estrela também se pode ressentir, numa altura em que se aproximam as feiras anuais deste produto.

“Nada disto é normal. Devia haver comida verde com fartura nos pastos e não há. Os animais já estão a comer palha e farinha e isto aumenta os custos, inviabilizando as explorações”, explica este pastor de 48 anos, assegurando que a quantidade de leite sofreu um decréscimo entre os 35 e os cinquenta por cento.  “Este vale tem alguma humidade e ainda mantém algum pasto mais ou menos verde, mas em outras zonas do concelho devem estar muito piores”, conta, sublinhando que muitos estão a ponderar reduzir os efectivos e ele próprio já pensou nisso, mas legalmente não pode ir além de uma redução de dez por cento do efectivo, sob pena de ter de devolver os subsídios recebidos.

Os pastores esperam, entretanto, ainda que venha algum auxílio. Do céu em forma de chuva que desenvolva e hidrate as plantas ou por parte do Governo para aquisição de palha. “Neste momento há apoios para a aquisição de cisternas para transporte de água ou abertura de furos. Mas nenhum destes apoios resolve o problema imediato que é a alimentação dos animais. Não há pastos. No imediato, precisamos de uma linha de crédito que nos permita comprar palha”, conta Paulo Rogério, enquanto a esposa lamenta aquilo que classifica de uma perseguição sem precedentes aos pastores. “Vieram os incêndios em 2017 e levaram tudo, agora, que começamos a levantar a cabeça, temos esta seca que também ameaça deixar-nos sem nada”, frisa, sem disfarçar alguma angústia.

O histórico responsável pela Associação Nacional de Criadores de Ovinos Serra da Estrela (ANCOSE) é também um homem preocupado pelos efeitos que esta seca esta a ter junto dos cerca de três mil associados da instituição a que preside. “Já apresentei as nossas preocupações ao Secretário de Estado da Agricultura e do Desenvolvimento Rural que admitiu uma operação de distribuição de alimento junto dos produtores semelhante àquela que aconteceu na sequência dos incêndios de 2017”, explica Manuel Marques, sublinhando que a ANCOSE, por si só, não tem capacidade financeira para “acudir” às necessidades dos produtores.

“Quero acreditar que o Estado e mesmo as autarquias vão começar a ajudar os agricultores”, frisa, salientando que o momento é muito difícil para os produtores e que a produção de queijo Serra da Estrela já sofreu uma quebra na ordem de um terço. “Não tenho, porém, conhecimento de que haja produtores a vender animais, embora essa seja uma possibilidade dada a situação que vivemos. Espero que surjam apoios para evitar essa situação”, sublinha este responsável que se tem desdobrado em esforços para ajudar a encontrar soluções. “O problema é muito preocupante”, remata.

António Duarte está a viver “um inferno” por conta da sua exploração que conta com cerca de 1600 animais em Nabais, no concelho de Gouveia. Pondera reduzir o efectivo para metade. “O terreno está mais seco que no Verão. As pastagens de centeio estão secas. É insuportável. Não me recordo de uma seca assim”, conta este produtor de 42 anos que já tem de recorrer à compra de leite em pó para alimentar três centenas de borregos. “Isto está insustentável. Os subsídios já foram, as ovelhas não comem nada verde e com uma alimentação à base de palha o leite é praticamente inexistente”, explica.

As dúvidas de António Duarte, se não existirem apoios rapidamente, são poucas. “É necessária uma intervenção do Governo como a que aconteceu aquando dos incêndios. Já não estou a vender leite porque o que há vai para os borregos e como disse ainda tenho de comprar algum em pó. É simplesmente insustentável”, remata.

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