… escreveria este livro?”, da autoria de Carlos Ramos datada de 2007:
Terminei a leitura de um livro excelente, pela qualidade da escrita e das “estórias” que, no todo, retratam o povo que fomos num passado não muito longínquo; apesar dos ventos que vão soprando algum progresso, estas cento e sessenta páginas de prosa ainda reflectem um pouco do povo que somos – tão actuais em certos casos e situações que me revejo em algum lugar onde oito anos de distância pouco ou nada acrescentaram às imagens que o autor retratou com mestria.
“Um Almoço de Negócios em Sintra”, “é um retrato em corpo inteiro de Portugal e dos portugueses…” à data da primeira edição; antes, já o autor deambulava por aí de olhos bem abertos, por isso não é de estranhar a sua perspicácia na análise de hábitos e costumes enraizados na vivência de um povo.
Gerrit Komrij, escritor, poeta, ensaísta e tradutor, holandês pelo nascimento, é “oliveirense” adoptivo. São da sua lavra as estórias reais que verteu para esta obra, editada e reeditada em 1999. Possivelmente, o livro está fora do circuito comercial, por isso não há intenção de levar eventuais leitores à sua aquisição, o que não seria de todo inútil, confesso, porque a leitura de “Um Almoço de Negócios em Sintra” talvez contribuísse para cada um de nós esboçar, pelo menos, o seu auto-retrato.
Estou certo que encontraríamos “pontos comuns” com algumas figuras ali descritas, não nos pormenores estéticos, mas perfeitamente identificados nas personalidades recebidas por herança e das quais não nos conseguimos libertar, vá-se lá saber porquê (ou sabemos?).
O senhor Gerrit está, no livro, contra os senhores dos guichés das repartições públicas, (e eu também – estamos todos!) porque, como relata, “muito nas calmas, vão cavaqueando…”. Salienta, pela negativa, a enorme burocracia de que somos vítimas, e dos bucólicos e ronceiros carros de bois (ainda circulam por aí?) poetiza uma imagem simpática, mas não compreende “o que é isso de existir uma alma portuguesa”, talvez fatalista – tão fatalista como a força do fado que não consegue definir. É – escreve – sentimental de alto a baixo, sem nunca ser vulgar.
A aldeia onde mora o “nosso conterrâneo”, escreve, é muito carente, mas o presidente de Junta de Freguesia (naturalmente, o livro no seu todo ou em parte foi escrito por altura de eleições autárquicas) não se cansou de fazer promessas “eleitoralistas”!. “Veremos se cumpre, sobretudo o alargamento do cemitério”, mas o senhor Gerrit sugere ao eleito: já que “à menor lufada de vento, falta a electricidade. Dez, doze vezes, por minutos ou por umas horas. O senhor presidente da junta bem poderia pedir um reforço do distribuidor local”. Hoje como ontem, afinal… O incumprimento de horários é outro dos aspectos do retrato de ser português…
As casas tipo “maison” também não passaram despercebidas ao seu olhar atento, e um dos capítulos é inteiramente dedicado à “fealdade com que Portugal está salpicado”. Singelas citações da obra servem, tão só, para se ficar com uma ideia do manancial das observações descritas – algumas incomodam pela irreverência do conto, mas certo sentido de humor, adoça a prosa.
Poderia “surripiar” do livro outros apontamentos interessantes, mas como estão inseridos em determinados contextos, seria pura especulação o acto em si. Fica, porém, o conselho: se tiverem oportunidade, não deixem de saborear as “estórias” deste “Almoço de Negócios em Sintra”.
O País que temos, caminha em velocidade cruzeiro, de facto, mas lá vai fazendo pela vida e nem tudo está como era dantes, felizmente. Hoje, Gerrit Komrij escreveria este livro?