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(Re)Pensar a Indústria. Autor: Michael Nunes

Desde já desenganar o leitor que vislumbra no título desta crónica um pendor sombrio e cinzento, capaz de trazer à memória os aglomerados industriais da primeira metade do séc. XX. Pelo contrário, a (re)industrialização que urge erguer nas economias desenvolvidas, assenta numa economia de conhecimento, na qual uma mão-de-obra qualificada e com condições condignas de trabalho, abre caminho a um mundo industrial sustentável e competitivo. Uma reflexão a várias latitudes, que não olvida um olhar sobre a região Beirã.

Investir no sector secundário, é estar certo de que se investe num sector resiliente, capaz de criar valor acrescentado, contrapondo-se às actividades tendencialmente flutuantes do sector terciário, de que é exemplo o turismo. Além disso, este é um sector que fixa capacidades e que actua como motor do ensino superior e profissional, promovendo investigação e desenvolvimento em múltiplas áreas de conhecimento.

É sobretudo neste último ponto, que a actividade industrial dos países ocidentais tem o seu maior trunfo. O contínuo investimento em capital humano, a par da cooperação com instituições de ensino, tem-se traduzido em unidades industriais eficientes e sustentáveis, onde em paralelo com a automatização e digitalização de processos, os colaboradores têm um papel cada vez mais autónomo e menos esforçado.

Os contínuos refinamentos da indústria Europeia, em oposição às práticas e legislações questionáveis da indústria Asiática, devem levar-nos a repensar e reconsiderar a crescente deslocalização industrial para países além Pacífico. As consequências nefastas da crescente dependência foram evidentes nesta crise pandémica, traduzindo-se em atrasos das cadeias de abastecimento, ou mesmo no atropelo tribal de países à roda de globo, a fim de garantirem a compra de ventiladores ao único(!) país que os produzia, colocando assim milhares de vidas à mercê do funcionamento da economia deste.

O caminho passará por reduzir esta concentrada dependência das cadeias de valor, estimulando um desenvolvimento do sector primário e terciário em harmonia com as indústrias instaladas, promovendo conceitos como a Economia Circular e a Indústria 4.0.

Não obstante a importância da globalização da actividade comercial, a especificidade e singularidades de alguns ramos desta, reavivam a importância de dissecar as necessidades de cada país, por forma a promover uma fixação de indústrias estruturantes para a sua economia e sociedade.

Ainda no início deste mês de Fevereiro, à margem da participação no “Portugal Railway Summit”, ouvia o ministro das infraestruturas Pedro Nuno Santos, falar da importância de revitalizar a indústria ferroviária nacional. Um tema pertinente, numa altura em que se aproxima o cessar do ciclo de vida de mais de duas centenas de comboios que a CP tem ao serviço. Comboios esses, que só foram possíveis graças à briosa e insigne Sorefame, uma indústria nacional de material ferroviário fundada nos anos 50, requisitada mundialmente por a sua qualidade e inovação exemplares, cujo descrédito do nosso país, levou a que sofresse um progressivo desmantelamento que culminou no seu término, no final da década de 90.

Contudo, feito esta breve revisionismo às decisões penosas dos governantes de outrora, cabe agora pensar numa renovação estratégica e territorialmente equilibrada, considerando o interior do país para uma redistribuição desta actividade e da consequente geração de riqueza, impondo um modelo de participação activa nas sociedades onde estão inseridas.

Enquanto jovem de origens beirãs, frequentemente dou aso a reflexões e debates com amigos e gentes do meu concelho no que concerne à actividade económica deste. A primazia do sector primário é inegável, desde logo pela riqueza dos seus campos e pastoreios. Contudo, há também uma ligação axiomática à indústria transformadora que, em tempos idos, alcançou uma posição de referência no distrito conimbricense.

De entre estas, destaque para a actividade têxtil, uma indústria bandeira do concelho pela autenticidade e qualidade exímia dos seus produtos. Porém, a falta dos apoios necessários à promoção da sua competitividade, tem-na colocado numa posição de difícil sustentabilidade. Uma vez mais, o esforço se torna acrescido pela concorrência desregrada do mercado asiático, onde as condições sub-humanas de trabalho no sector, permitem custos de produção diminutos que redundam numa quota de 85% do total consumido na Europa.

Contudo, não só este sector de actividade se recente com a crescente exigência de competitividade. O tecido empresarial oliveirense, em geral, carece de músculo e de uma visão estratégica que explore as potencialidades da região em linha com as directrizes nacionais.

Esta pujança requerida, transcende a mera criação de pólos industriais que acabam desertados, incapazes de atrair uma indústria em 20 anos, ou a criação de um Itinerário Complementar que adiciona mais um acesso rodoviário à região.

A saída para este jejum de investimentos concelhios passa não só, mas sobretudo, por aliar o saber das gerações experientes à seiva jovem proveniente da sua escola profissional, do seu instituto de ensino superior e ainda dos jovens que “dão cartas” em diversas universidades do país. A relação binomial ensino-empregabilidade é um excelente agente de captação de população jovem e de dinamismo, combatendo a desertificação a que o interior é constantemente relegado. Esta última, responsável por quebrar a egrégia transmissão de conhecimentos entre gerações passadas e futuras, sobretudo o valioso conhecimento oriundo da experiência, pois como se diz cá na Beira “Do trabalho e da experiência, aprendeu o homem e a ciência”.

Tenho em crer, talvez pela índole dos meus estudos, que o projecto precede inexoravelmente a obra e, portanto, mais que partir para o terreno a construir, em sucessivos avanços e recuos do rumo a seguir, é preciso “Pensar Oliveira”, “Pensar a Indústria”, “Pensar Portugal no Mundo”. Depois sim, icemos as velas e rumemos aos desígnios firmados!

 

 

 

Autor: Michael Nunes

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