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Sermão do Beato… aos peixes. Autor: Carlos Martelo

Fala o Narrador :

Há outros sermões aos peixes que ficaram famosos e nós não temos pretensões a tanto, obviamente, que o «imperador da língua Portuguesa»  –  o pregador e escritor, padre António Vieira –  já existiu e o orador refinado e milagreiro Santo António, por assim dizermos, está confinado nesta hora difícil e mais vale rogar-lhe, com fé, que nos livre da Covid…

Mas, salvaguardando sempre as devidas proporções literárias, tivemos a lembrança de escrever uma espécie de outro «sermão» ao relermos recentemente essa obra-prima da oratória que sempre será o «sermão aos peixes» de António Vieira que o pôs na boca do seu «xará» António de Lisboa ou de Pádua ou de ambas as cidades, como se queira, que o arcaboiço desse homem dá para tanto e sobram homem e fama aliás como no caso de Vieira.  Pois que eles, os Mestres, nos desculpem o atrevimento.

Então, um dia destes, saímos de casa e, apesar da pressa que a hora do trabalho aproximava-se, passámos naquela zona do Quartel dos Bombeiros Voluntários, em Oliveira do Hospital, e da Rotunda da suposta mãe já enferrujada e enroscada no suposto filhote e também ele já enferrujado.  E por aí estacionámos para olhar o alto depósito da água pública, ali existente há décadas e que agora exibe uma pintura já completa, a cores quentes, no seu bojo superior completamente decorado, a toda a volta.  E lá vimos, com mais atenção que antes, os azuis das pretensas águas e vimos peixes, vários peixes pintados com alguma fidelidade formal, como está a truta virada mais a Nordeste do bojo do depósito.  Nós sempre gostámos de trutas e de todas as espécies e cores… Ficámos sensibilizados.  E agradados também que agora poderemos  mirar a obra pictórica ao por ali passarmos e até mesmo um pouco desde nossa casa.

Tendo ainda em conta que lá por trás fica aquela complicação arquitectónica e futuro «Santuário do Beato…» como muita gente já alcunha, veio-nos logo à lembrança intentarmos imaginar o «Sermão do Beato… aos Peixes» e assim nos ajude alguma arte. 

Vamos começar.

O Sermão aos Peixes

Apregoa Beato… desde o seu púlpito, virando-se, alternadamente, para os acólitos que fez juntar para o aplaudirem e para os peixes pintados os quais aponta com o dedo em riste:

– Vós que sóis peixes e existis tantos, no mar e também em rios e em riachos, vós passais a também estar nos ares e sem que sejais peixes voadores.  Fiquem aí, vários em forma figurada, alegorias em fundo de azuis como se fosse o céu que as águas por cá não têm uma côr assim.  Andam sujas, e fogem delas os peixes-peixes como o Diabo foge da Cruz !

Em verdade vos digo, águas boas só aquelas que agora benzo, sentado que estou à mesa da empresa que fundei com uns «sócios» e amigos, para a distribuição da água pública ao domicílio.  Essa água até já está certificada para dela poder sair água benta.  Um santificado e garantido negócio…

Quero dizer-vos, peixes, que não vos deixeis cair em tentações de acreditar que aí estais representados, em altaneiro «aquário virtual», apesar de físico, por vos considerarmos merecedores de reconhecimentos ou honrarias.  Vós existis, para mim, para a minha equipa e para os meus patrocinadores, vós existis no essencial para nos servir a nós.  Aliás, alargo aos nossos Humanos-Conterrâneos essa mesma e muito elevada honraria, a de me servirem, pintados, fotografados ou em carne e osso ! 

E ainda que sejais mulheres e homens de pouca fé, acreditai nas vantagens a colher na pesca ao voto e no manjar do prato que a seguir nos for servido em nossa homenagem de «pescadores de votos» (não, «pescadores devotos») qualquer que seja o isco que atiremos.  Mordam esse isco, fiquem presos no nosso anzol, votem, e considerem-se pescados (lixados).  E depois de vos escamarmos e de limparmos vossas entranhas com todo o zelo, preparai-vos para serdes fritos e (socialmente) degustados em vossa essência,  preferencialmente com o capricho de um bom molho de escabeche (partidário) que eu e os meus «irmãos» temos cá um paladar e um jeito privilegiados para esse efeito…

E quem me vier dizer que não quer assim, quem ousar pretender saltar do quadro pintado a meu desejo nesse bojo alto, aí em cima ou noutro qualquer local, quem ousar olhar-me de frente nos olhos e discordar de mim, é condenado ao fogo da minha ira que pode ser pior que o fogo grego das antiguidades ou que o «napalm» norte-americano da contemporaneidade !  

Ouvi e tremei pois, peixes de todos os aquários, de todos os rios, e homens e mulheres de todas as freguesias e credos. Ouvi-me e permanecei calados que eu também sou o vosso «sal da terra». Portanto, obedecei-me sem hesitações que vos posso excomungar (política e socialmente) !

É assim o mundo das águas reais em que vós gostaríeis de nadar (supostamente livres) e ainda que vos comêsseis uns aos outros.  Os grandes a comer os mais pequenos.    Afinal como, cá fora, cá nesta terra, eu como as papas na cabeça aos que apresentam figura humana mas que, para mim, existem principalmente para minha glória e minha redenção perpétua.  A esses, gosto eu de os comer por parvos e não por peixes (ou eleitores) esclarecidos…

Há quem diga que vós, peixes-peixes, já não existis em quantidade suficiente e com boa parecença em rios e riachos da minha paróquia.  Essas e outras do género são bocas da reação, são maus agoiros de invejosos ou hereges.  Pois que outra e maior prova de existência de peixes, quiçá de enguias, e com tantas variedades, pode atirar-se à frente desses provocadores, do que esta bela prova, feita banda desenhada, que mandámos pintar lá em cima do depósito da água ?  Lá no alto, elevada, para que vossos olhos de ceguetas se tenham de erguer aos céus em minha adoração enquanto por cá concedo o favor dos meus ósculos ao desbarato.  Também para que se faça luz nas vossas trevas que eu sou uma espécie de presidente-sol, embora a caminho de ser rainha-sol, pregando e reinando neste planalto da região de Coimbra já demasiado pequeno para toda a minha presunção. 

E agora vos comunico a minha vontade em jeito de testamento.  Quero que ergam – os candidatos a meus sucessores não terão certamente os meus sucessos – quero que ergam, em minha honra e glória, um pedestal em cima de uma coluna maior do que as de Ramessés II, o faraó egípcio, ou do que a Coluna de Trajano, o imperador romano.  Não invoco a Coluna da estátua do Marquês de Pombal, em Lisboa, porque e apesar de eu já ter uma enorme grandeza,  esse «senhor» ainda é mais famoso entre nós do que eu sou, e esteve envolvido no processo de perseguição e morte do meu «colega» mártir, o grande pregador padre Malagrida. 

Coloquem esse magnífico conjunto artístico, na maior rotunda que um dia venha a ter o         IC 6 dentro da minha paróquia.  E lá em cima, bem chumbada para não tombar facilmente como tombou a estátua de Saddam Hussein, em Bagdá, coloquem uma estátua de mim, enorme e que me faça justiça.  Eu, representado em minha estátua colossal, montado num Cavalo-Alado, qual «Pégaso», muito maior e mais empinado ainda que Cavalo do Cavaleiro instalados na rotunda dentro da cidade de Oliveira do Hospital.  E pintem essa escultura, a mim consagrada, com tinta fluorescente para onde apontem, sem descanso, raios ultravioleta para que se não apague dia e noite e surja, lá no alto, iridescente e prodigiosa em seu aspeto !  Assim como ela, a minha futura Estátua a mim próprio, nem egípcios, nem gregos, nem troianos, nem romanos ou chineses, alguma vez tiveram uma, qualquer outra, deles e em sua homenagem. 

Paroquianos e acólitos meus, gostava de ter sido eu a dizer : «Alea jacta est», como disse o César  Romano, mas digo aqui e agora para que sirva de «legenda» inscrita na Coluna gigante por baixo da minha monumental estátua equestre-alada (maior que aquela outra Estátua, simplesmente equestre, do Terreiro do Paço), inscrevam uma citação minha:

– «Beato… só há um, o próprio e mais nenhum !  Salvé !».

Narrador:

E assim terminou este seu «sermão aos peixes» do depósito da água. E os acólitos são estimulados a berrar hossanas e a bater as tampas dos tachos. E assim fazem, servis.  

 

 

 

Autor: Carlos Martelo

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