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Ventura Chega é fascista? Autor: Luís Filipe Torgal

O fascismo é um conceito complexo que já fez correr oceanos de tinta entre historiadores, politólogos e sociólogos. Nasceu em 1921, na Itália, quando os esquadrões de Fasci di Combattimento se transformaram no Partido Nacional Fascista. Portanto, emergiu na conjuntura excecional de colapso económico e social do pós-guerra e de violento confronto ideológico entre o demoliberalismo e as correntes socialistas e comunistas que almejavam propagar a revolução «vermelha» ao Ocidente. Depois fragmentou-se em diversas matizes fascizantes que triunfaram em vários países (Portugal, Roménia, Alemanha, Áustria, Hungria, Espanha…).

Claro que Ventura Chega inclui, no seu programa, bem como no seu discurso virulento, características do fascismo genérico. É revolucionário, porquanto ambiciona derrubar o regime democrático desenhado pela Constituição de 1976 e edificar um «Estado Novo». Para isso apela à mobilização de uma massa heterogénea de ingénuos, desesperados, ressentidos, deserdados, ignaros, malfeitores e oportunistas, que – julga ele — tende a crescer e a aclamá-lo, no contexto da crise pandémica e da erosão dos regimes democráticos (que tardam em responder com eficácia aos grandes problemas coevos). Busca empatizar com as turbas e endrominá-las. Para se fundir com elas, exibe uma idiossincrasia paradoxal, onde coexistem traços de homem vil e afável. Amaldiçoa as minorias e os delinquentes para espicaçar o ódio das turbas (só para despertar a paixão das massas, será capaz de exigir a sua evacuação, castração, extermínio ou expiação da culpa em «cândidos santuários»). Ventura diz-se ungido por Deus e pela Senhora de Fátima (embora os redentores Mussolini e Hitler fossem ateus, mas não Salazar, que era católico mas laicista) para regenerar Portugal e guiá-lo rumo a um passado esplendoroso. Anseia conquistar, no momento oportuno, o monopólio do poder. É pragmático, maquiavélico, anticomunista, mas, em certa medida, anti-ideológico (não tem ideias estruturadas, nem qualquer convicção e dirá sempre que não é fascista). É marialva, xenófobo e racista (ainda que continue a negá-lo). É securitário (sonha com um aparelho policial repressivo ou uma guarda pretoriana habilitada a proteger e perpetuar o seu poder). Usa a mentira e a trapaça para mascarar a verdade (como fizeram/fazem, com esmerada vocação, todos os «chefes» fascistas e populistas). Vocifera contra a fuga fiscal e a corrupção, mas ganhou a vida a dissimular fortunas e a ignorar as burlas financeiras de dirigentes do glorioso clube que o tornou mediático. Engendrou um cabalístico sistema fiscal capaz de proteger os ricos e de molestar os pobres. É nacionalista, antieuropeísta e liberal, advoga a privatização da saúde e da educação e o fim do Estado Social. Aliás, Ventura será tudo o que foi enunciado atrás e o seu contrário, em função das circunstâncias do momento. E as massas, entretanto intoxicadas e amotinadas, estão pouco interessadas em aferir se o seu redentor diz o contrário do que faz.

A palavra fascista será suficientemente tóxica para qualificar o Chega e o seu prócere. Mas, sejam eles fascistas ou populistas (os fascistas eram populistas), importa, sobretudo, encontrar vias eficazes para combater os novos «duces», os seus esbirros e os seus incautos eleitores. Não é fácil debater ideias com eles, pois fogem a esse confronto e refugiam-se na sua bolha (um mundo alternativo, maniqueísta, onde a Terra é plana e tudo se explica à luz de mistificadoras teorias da conspiração). Por outro lado, quando chegam ao poder revelam bem as suas fragilidades (basta olharmos para Bolsonaro, Trump, Salvini e também para o que aconteceu com os partidos populistas na Áustria ou Holanda). De todo o modo, cabe a todos os democratas combaterem — por palavras e atos — os populistas ou os «neofascistas mais ou menos encapotados» e defenderem uma democracia mais transparente, mais participativa (os valores da abstenção nos atos eleitorais são inaceitáveis), mais inclusiva. Intervir também por uma democracia em que todos compreendam que os problemas globais só podem ser resolvidos ou atenuados com consensos globais.

O bacilo do fascismo ou do populismo radical nunca foi erradicado e permanece entre nós, no corpo da democracia de massas, assumindo sempre a forma e as cores do seu tempo e da sua cultura. Se o ignorarmos e permitirmos que ele prolifere, o mundo será de novo contaminado pela peste e sucumbirá no despotismo e na violência. Os mais imprudentes, os trôpegos, os oportunistas, por ora, aplaudem Ventura Chega com euforia e altivez. Saberão eles, porventura, que, se Ventura for poder, irá desprezar todos os que o louvaram e transformá-los nos mais miseráveis súbditos?

Autor: Luís Filipe Torgal

 

 

 

 

 

 

 

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