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Volta e meia revisito Camões. E sempre me acontece comover-me com tristezas e alegrias. Autor: João Dinis

Volta e meia revisito Camões.

E sempre me acontece comover-me com tristezas e alegrias.

E também tento imaginar o homem por detrás da poesia, o homem capaz de passar a palavras portuguesas, a rimar, tantas emoções, pensamentos, amores e desamores. Um homem capaz de ser muito maior que ele próprio. Um homem sensível, culto, desafiador, e também desiludido como no soneto – “Erros meus, má fortuna, amor ardente – Em minha perdição se conjuraram” ou na elegia – “Ó fugitivas ondas, esperai ! – que, pois me não levais em companhia – ao menos estas lágrimas levai”. 

Um artista genial !  Não afirmo isto por já o ter lido ou ouvido em qualquer lado.  Gosto de ler Camões, de me emocionar com a sua arte emérita e de o tentar imaginar fora daqueles estereótipos veiculados por um certo filme com seu nome.  

Gosto de fazer o grato exercício de “privar” um pouco com Camões, o homem, o renascentista e o poeta. Para isso, nada melhor que lê-lo e “voar” com ele.

Camões que se alistou, com direito a soldo, na tropa da época – poderá até ser considerado um mercenário apesar de ter servido a tropa portuguesa – um soldado que combateu de armas na mão, fora da Pátria, e que até foi ferido em combate – e não estou a usar metáforas.  Todavia, por sobre tudo isso, ele era bem capaz de captar e transmitir, com a maior mestria e com a maior sensibilidade, com habilidade nata (embora bastas vezes trabalhosa), essências várias da vida, num poema excepcional tantas vezes em, apenas, um ou dois versos de um poema, em qualquer das formas poéticas que utilizou.

– “Descalça vai para a fonte – Lianor pela verdura – Vai fermosa e não segura” – enfim, este mote incomparável do famoso poema pode até nem ter sido dado por Camões, mas são e produziram versos do melhor que há escrito em qualquer língua, e tão naturalmente escritos como podemos imaginar a água fresca e pura que Lianor traria da fonte para onde a sonhamos a ir “fermosa e não segura”.   A propósito, quero referenciar uma canção genial, com uma letra construída a partir do mesmo mote, letra muito digna do poema original e inscrita em música belíssima  e notavelmente cantada pelo padre Fanhais. Vale a pena irem à Net e ouvirem essa espantosa canção.  Amália canta a Lianor que vai fermosa e não segura e segue o poema original.  Zeca Afonso também canta a Lianor mas com letra diferente do poema original.

“O dia em que eu nasci morra e pereça – Não o queira jamais o tempo dar” – não conheço nada de mais desolado e desolador, em que todo o soneto faz transparecer uma autêntica tragédia emocional do autor, do “meu amigo” Luís Vaz.   

“Estavas linda Inês posta em sossego – de teus anos colhendo o doce fruito” que extraordinária expressão que a mim me remete para imaginar um quadro quase bucólico, simultaneamente pintado com a luminosidade do Sol mas com nuvens negras a verem-se já em fundo… Tudo envolvendo a figura de uma jovem tranquila que a “fortuna” (o destino) vai maltratar em vida, embora o próprio destino se tenha arrependido disso que, a mesma jovem, “depois de morta foi rainha”.

— “Mais vale experimentá-lo que julgá-lo – Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo” – pode até “parecer mal” isolar dois versos do episódio da “Ilha dos Amores”, em “Os Lusíadas”.  Sim, que esse fabuloso episódio, para mim, é do mais notável que alguma vez terá sido escrito em qualquer língua e nem sequer preciso de ir procurar outros.  Basta ler devagar, e reler, a “Ilha dos Amores” para se sentir e avaliar a extraordinária criação poética que representa. E, nela, os dois citados versos, considero, são a melhor síntese que conheço, e duvido que possa haver melhor, naquilo que toca ao consumar-se ou não o acto físico do amor !  “Só” com esses dois versos, Camões demonstra ser um sábio “de experiência feito”.  Que formidável (e acertada) síntese !

—“Todo o  mundo é composto de mudança – Tomando sempre novas qualidades” – outra síntese que impressiona  tendo sobretudo em conta a época em que Camões a escreveu.  Aqui, falou o renascentista, o poeta atento e estudioso, alicerces em que assenta o seu génio. Génio ao mesmo tempo produtor e temperado pela apuradíssima sensibilidade para comunicar através da poesia em que tantas e tantas vezes “as coisas” não são o que parecem por causa da arte da metáfora.

“Alma minha gentil que te partiste – Deste mundo tão cedo, descontente” – caraças, aqui estão os dois versos que constituíram a minha maior desilusão poética durante uns tempos em que quase “deprimi”, em que quase reneguei Camões.  É que o soneto da “minha maior perdição” camoniana é esse “monumento” lírico, clássico, de Luís Vaz de Camões que começa com os dois citados versos.  Entretanto, a dada altura, e já eu estava “apanhadinho” por esse soneto, vim a descobrir que um dos “pais” – clássicos – da forma poética do “catorze” (versos) que é o soneto, o senhor Francesco Petrarca (italiano) que viveu quase dois séculos antes de Luís Vaz, tinha escrito um soneto que começa assim:

“ A alma minha gentil que agora parte – tão cedo deste mundo à outra vida “ – ou seja, fiquei desiludidíssimo que o “meu” Camões tinha praticamente plagiado o Petrarca !                 O soneto da “alma minha”, afinal, era de outra “alma”, antes ! Confesso que demorei bastante tempo a remoer a coisa, a aceitar a ideia que Petrarca “apenas” tinha influenciado a lírica camoniana, que os sonetos acabam por ser diferentes sendo que, sem “fanatismos”, considero o soneto de Camões melhor, mais aberto e amplo, mais artístico.  A capacidade, a habilidade, em relacionar e refazer conceitos e metáforas revelam-se muito belas, em Camões.  Ao mesmo tempo, é impressionante o domínio praticamente completo da (nossa) Língua com ele mais actualizada. Mas, apesar de tudo, obrigado Petrarca por teres influenciado Camões para o “alma minha”.  

Aqui, não consigo deixar de lembrar a parte do “estudo” da poesia camoniana (e de outros) que nos enfiavam, à força, pela boca abaixo:- é uma tal de “cacofonia”, o som que soa ao dizermos “al-maminha” …  Ou seja, quase nos “matavam” a beleza da poesia de Camões com tais “estudos” e então para “Os Lusíadas” ?  Aliás, no meu tempo de jovem estudante, “Os Lusíadas” apareciam-nos amputados de algumas Estrofes como, por exemplo, as que compõem o episódio da “Ilha dos Amores”. Que bestas eram os “mandões” que determinavam tais “cortes” !  Por acaso, eu consegui recuperar desse autêntico “trauma”…

***

Bem, como nem sequer tenho ilusões acerca da minha (falta de) capacidade para o efeito, termino a dissertação dizendo-Vos:

– Mais vale ler Camões que falar sobre ele

Mas ouça falar sobre ele quem não pode lê-lo”. 

Enfim, pelo menos tente sintonizar a sua própria sensibilidade para captar algumas das “ondas” em que “surfou” Luís Vaz.  Estará a fazer um (grande) favor a si próprio, acredite.

Terá, então, toda a legitimidade em afirmar que não aprecia Camões.  Mas, aí, entenda-me, eu chorarei por si…por aquilo que perde.

Autor: João Dinis, Jano

Nota:- eu também gosto muitíssimo de Fernando Pessoa que, para mim, não tem princípio, nem meio, nem fim.  É ele em mais 50 outros “ele”. E nós, por cá, a vermos se conseguimos chegar lá – a Pessoa – nem que seja um poucochinho de cada vez.  E o meu amigalhaço Bocage é outro imperdível.  E o Ary que venha para aqui !   Enfim, gosto ! Certo, lembrei-me agorinha, um abraço também para ti, Boto.  E Gedeão, outro para ti, porque não ?  E da Florbela, gosto mesmo muito dela !

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